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Francisco Moita Flores

Murro e pontapé

Hoje, sob a aparência de um mundo mais rico, vivemos num universo bem mais pobre.

Francisco Moita Flores 1 de Novembro de 2015 às 00:30
Há muito que não se via, na sociedade falante portuguesa, os níveis de crispação que atravessam os nossos dias. Parece que regressámos ao período do PREC, onde os argumentos de cada um não passavam de trincheiras de onde partiria a gloriosa revolução proletária ou, pelo contrário, a reposição da ordem moral do respeitinho caído em desgraça.

Nesse tempo, a força das utopias valia bem mais do que a prova dura da realidade. Uma ideia continha a fé de um paraíso. De uma Jerusalém Celeste construída a partir dos sonhos que comandavam as nossas vidas.

Embebedávamo-nos de revoluções na Trindade, em todos os bares conspirativos da Lisboa noturna para, no outro dia, não a conseguirmos fazer com o peso das ressacas. Mas ninguém duvidava do socialismo. Ao ponto de o CDS o inscrever no seu programa fundador. Havia para todos os gostos. Desde o socialismo de inspiração cristã, ao socialismo marxista-leninista, ou o outro outorgado por Trotski, passando pelo de Enver Hoxha, e, ainda, inspirado no pensamento de Rosa Luxemburgo. E, claro, no livro vermelho de Mao.

Era um imenso cardápio de socialismos com ovo a cavalo e muitas imperiais. Umas namoradas pelo meio e muito apreço pelas manifs lideradas por operários e camponeses. Hoje restam poucos operários, os camponeses minguaram até à ruína. Agora sobra uma outra categoria mais difusa: os trabalhadores. E, do outro lado, morreram os capitalistas e surgiram os mercados.

Muitos fatores mataram esta República de sonhadores. A queda do Muro de Berlim é a mais citada mas não foi a única. Essa geração envelheceu hesitante entre as suas utopias e a saudade da idade em que as viveu. Deixou de entender o mundo preso ao revivalismo do sonho irrealizável, embora ele continue a comandar as nossas vidas.
Hoje, sob a aparência de um mundo mais rico, vivemos num universo bem mais pobre, onde dominam números. Tudo é submetido a essa ditadura cruel. Seja da inflação, seja do PIB, seja do calculado número de boys que cada governo consegue alimentar.

A poética das imperiais revolucionárias deu lugar à bizarria do calculismo mais sórdido. Não admira que a ressaca seja feita a murro e pontapé. Crispada e ressabiada. Necessitamos urgentemente de regressar à mesa das imperiais. Com afrontamento, é certo, mas afirmando os vínculos da liberdade fraterna.
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