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Francisco Moita Flores

O carteirista

Duas açordas de marisco, quinhentos euros, toma lá e vai-te curar.

Francisco Moita Flores 6 de Agosto de 2017 às 00:31
A história do carteirista que abriu um restaurante em Lisboa, esmifrando centenas de euros aos clientes que se iam bater a uma açordinha de marisco, é deliciosa. E compreende-se. Com a multiplicação o dinheiro electrónico, cartões de crédito, de débito e outras especiarias tecnológicas as notas são cada vez mais raras na carteira do cidadão comum e há que inventar outra forma de governar a vidinha. Burlando, é certo, porém, carteirista não é um ladrão qualquer.

Noutros tempos encimavam a pirâmide de reconhecimento e admiração no mundo prisional. Em calão marginal 'comer uma chata' não é para qualquer gatuno. É uma arte. Meter os dedos, indicador e médio, 'os baios', na algibeira de um 'otário', à velocidade da luz e sem que a vítima dê conta, precisa de dezenas, talvez centenas de horas de treino. Muito tempo gasto em aprendizagem para ser desbaratado por causa das novas tecnologias, que dispensaram os antigos maços de notas por miseráveis cartões de plástico.

O artista mudou de ramo. Dedicou-se às burlas. Restaurante na baixa lisboeta, pomposo para estimular o engodo, um menu público e outro, o especial que não consta no cardápio, apenas descrito por palavras que auguram sabores extraordinários, e está feito. Duas açordas de marisco, quinhentos euros, toma lá e vai-te curar. Aquilo que espanta nesta história não é o ardil. Para quem conhece o submundo marginal sabe que a imaginação ao serviço do crime é generosa.

Surpreendente é o facto de isto acontecer numa das zonas mais policiadas da capital. Tudo se passar como se a ASAE não existisse e as vítimas ficarem conformadas, durante muito tempo, com os protestos discutidos antes de pagarem para ser vigarizados. Só agora é que a história se tornou pública, com direito a notícias gordas na comunicação social. Temos de reconhecer e em boa rima: O carteirista é um verdadeiro artista.
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