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Francisco Moita Flores

O cão

Um triplo homicídio motivado por um cão que, por ser cão, em vez de falar, ladra.

Francisco Moita Flores 6 de Setembro de 2015 às 00:30
Ao longo dos séculos, fomos modificando o olhar sobre a violência. Ver uma criança morrer, por efeito da peste, na Idade Média, não tinha o mesmo impacto afetivo que agora provoca quando vemos a foto de uma outra, abandonada numa praia do Mediterrâneo, no meio do psicodrama em que se tornou o êxodo, sem fim à vista, que neste momento procura países europeus. Mesmo depois da afirmação do Estado liberal e procura da expropriação da violência privada através dos mecanismos repressivos da Justiça, foi sendo construída uma cultura que procurou distribuir a violência, particularmente aquela que resulta em homicídio, em gavetas-tipo.

Matar alguém pela defesa da honra, pela defesa da propriedade, pelos excessos de consumo de álcool, no domínio da violência familiar, são condutas atrás das quais se esconde um motivo. Aliás, é tarefa essencial da reconstrução de um homicídio procurar a motivação do assassino e, a partir daí, encontrar a graduação da intenção criminosa no que respeita à culpa e à responsabilidade individual.

A história criminal ganhou maior complexidade quando a violência se tornou um produto das grandes metrópoles e o leque de motivos para matar aumentou exponencialmente. Desde os assaltos à mão armada até ao terrorismo, fomos sendo confrontados com novas formas de violência homicida. Matar deixou de existir apenas nos círculos restritos das pessoas que se conheciam, fossem familiares, fossem vizinhos, para se fundar em motivos aleatórios e, por vezes, absurdos.

Percorri alguns arquivos para encontrar motivos idênticos quer na criminalidade portuguesa, quer na de outros países vizinhos, como a Espanha e França. Não encontrei um único caso em que alguém alegasse, ou a polícia demonstrasse, que o motivo para matar outro indivíduo foi o ladrar de um cão, o miar de um gato ou o mugir de uma vaca.

Aconteceu esta semana que findou na Quinta do Conde. Um indivíduo, tendo como motivo a irritação que lhe provocava um cão que ladrava, de uma só vez, assassinou três pessoas. Uma delas, um oficial de polícia em serviço que não foi visto nem achado para construir esse bizarro motivo. É um acontecimento raro que vai ficar na história do crime em Portugal. Um triplo homicídio motivado por um cão que, por ser cão, em vez de falar, ladra. Na verdade, somos capazes de ser bem piores do que os animais.
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