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Francisco Moita Flores

Sinopse do fogo

O primeiro-ministro foi igual a todos os primeiros-ministros. indiferente, frio

Francisco Moita Flores 22 de Outubro de 2017 às 00:40
A violência das chamas dá imagens nas televisões de medo e fascínio. Imagens de uma besta imunda, poderosa, que é delírio, fome devoradora que engole quem lhe quer ver a entranhas. E morte. Imagens brutais. Mas belas. Os bombeiros envoltos em fumo, qual exército de deuses enfrentando o inferno. Cara a cara com a besta. Traiçoeira, caprichosa e violenta, não olha para quem destrói. Nem a flores ou a gentis rebanhos. Tudo abocanha, sôfrega, e o rugido é rouco, rancoroso.

Mas o espetáculo tem mais atores. Os pobres dos campos, agarrados à mangueira, batendo no monstro com enxadas, apagando-o ilusoriamente com pás de terra. E não há arremedo de lágrimas. As temperaturas evaporam-nas . Apenas rostos de sofrimento, rugas envelhecidas por onde escorre a tristeza ao encontrar o fim da vida, sem morrer. Apenas restam memórias.

Depois são os mortos. Não surgem nas imagens. Mas são pedaços de carvão, em poses teatrais, desconjuntados. Muitos morreram para salvar os seus animais. As comunicações entre bombeiros melhoram a carpintaria dramática da tragédia. Pedem meios para salvar mais uma casa. Não há meios. Pedem gente para acudir aos desvalidos. Não há. Perguntam pelas ligações SIRESP. Não há.

O Diabo. Engole a floresta, morde as aldeias, arrasa os campos e devora os homens. Porém, o guião está incompleto. Não existem crianças nas imagens. Aqueles lugares do fim do mundo não têm crianças! Só velhos ressequidos como as cepas das vinhas em dezembro. Que Marcelo abraçou emocionado.

Há muitos anos que não se via um Presidente que se emociona com o Portugal que está a morrer. O primeiro-ministro foi igual a todos os primeiros-ministros. Indiferente, frio, incapaz de sentir a luta da vida contra a morte. O poder é um afrodisíaco imune à dor. Não admira, pois, a descompostura que o Presidente lhe deu, em direto, para todo o País. E fez bem. Pois só quem é solidário na dor tem um sentimento ético sobre a morte do seu País.
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