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J. Rentes de Carvalho

As máscaras da bruxaria

Há noites em que essas figuras misteriosamente se deslocam e aparecem noutro lugar, noutra prateleira

J. Rentes de Carvalho 10 de Setembro de 2017 às 00:30

São ambos de meia idade e boa companhia. Melhor dizendo: ela é boa companhia. Ele, um sensaborão sorridente, de acordo com tudo e todos, babado pelos Rolling Stones, tem o hábito de passar os dedos pela cabeça, a certificar-se que as farripas lhe tapam a calva. Não tapam.

Vivacidade tem ela de sobra. Adora a Andaluzia. Ao segundo uísque põe um CD, aumenta o som acima do razoável e começa a cantar malagueñas e soleares, batendo o sapateado do flamenco com um entusiasmo de fazer inveja às chicas de Paco de Lucía.

Ricos, um nadinha snobs, correm a ouvir óperas em Milão, não perdem os teatros e a Tate Modern em Londres, duas vezes no ano visitam o MOMA em Nova Iorque, nunca falham o Kirov de São Petersburgo, e contam aquilo de um modo desprendido, dando ideia que neste tempo de viagens baratuchas, mesmo a plebe se pode permitir esses luxos de vez em quando.

Por curiosidade foram de romagem a Fátima em Maio passado, dizem que lhes causou espanto terem visto peregrinas com os joelhos em sangue, e os impressionou o poder que uma simples imagem exerce sobre as pessoas. Falando de imagens contaram que coleccionam agora arte africana, e que com as muitas máscaras, esculturas, azagaias, saiotes, apetrechos de feitiçaria, pandeiretas, animais embalsamados, a sua casa começa a ganhar um ar de museu.

Duas estatuetas avultam no conjunto, não pelas dimensões, trinta e poucos centímetros, mas pela magia que segundo ambos as envolve. A acreditar no que disseram, há noites em que essas figuras misteriosamente se deslocam e aparecem noutro lugar, noutra prateleira, tombam, encontram-nas viradas de costas. Já por várias vezes aconteceu que, passando junto delas, o gato tenha desatado a soprar e a arreganhar os dentes como se sentisse ali uma ameaça, e há ocasiões em que as lâmpadas sem razão esmorecem. A gente ouve aquilo, acena a concordar, põe o modo compenetrado que o assunto pede e fala doutra coisa.

Ora dá-se o caso que tenho na parede uma máscara de madeira que um amigo trouxe da Indonésia, e no seu dizer foi a máscara funerária de um adivinho. Não sendo dado a medos, nem a apreciar histórias do outro mundo, seria estranho ir eu agora acreditar em bruxarias ou mistérios, e esperar vê-la também mudar de sítio. Mesmo assim, desde então, se por acaso a olho e tenho o sentimento de haver ali uma presença, aceno um adeusinho amigável. Depois, à cautela, porque realmente nunca se sabe, escondo a outra mão atrás das costas e faço-lhe uma figa.

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