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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

J. Rentes de Carvalho

Já morri

Morri pela primeira vez aos quatro anos, na Exposição Colonial, no Porto, onde tinham cavado um lago rodeado de palmeiras.

J. Rentes de Carvalho 15 de Janeiro de 2017 às 00:30

O nosso barquito chocou com outro, e meu Pai, na pressa de me proteger, atirou comigo à água.

Morri por volta dos dez, com os banhos fortificantes que me davam de madrugada no rio Douro. E na adolescência morri em Lanhelas, junto da Capela da Senhora da Saúde: a bicicleta a derrapar, eu aos trambolhões, chorando a minha morte. Voltei a morrer em Viana, a correnteza do Lima a arrastar-me para a barra.

Nesse ano morri no comboio para Braga. O revisor, vendo-me pendurado na janela, deu um berro e puxou-me para dentro. "É perigoso debruçar-se! Ne pas se pencher au dehors. È pericoloso sporgersi". Ó palerma! Não viste o letreiro? Tinha visto, mas palavras assim é que não.(*)

Sentou-se a morte ao meu lado no céu do Amazonas. O avião que me levava para os Estados Unidos caiu num poço de ar tão fundo que na cabine voavam coisas e as hospedeiras pareciam ter-se libertado da força da gravidade.

Nas Astúrias morri na C-630, uma estrada pitoresca que vai de Fonsagrada a Puerto de Vega. Travei ao ver a mancha de óleo, e foi um rodopio que ora me levava para a borda do abismo à direita, ora punha à esquerda um outro ainda mais fundo.

Em Paris morri no metro Saint Lazare; ao atravessar a Place des Vosges; engasgado com uma asa de frango no restaurante Cambronne, familiarmente conhecido por Chez la Merde; e quando, mal saído da cama de madame Marie Louise, me cruzei nas escadas com o monsieur dela e, cortês, ele me deu as boas-noites.

Morri com outros quatro no ascensor de um hotel em Valladolid. Por mais que fizéssemos, a gaiola não parava nos andares nem abria as portas, e é curioso como a claustrofobia corta a respiração.

Em São Paulo aceitei um convite para, do céu, admirar ‘a imensidão da nossa metrópole’. Bom rapaz, bom piloto, mas tarado, fez-me sentar num biplano, apertou ele próprio os cintos todos, disse OK, e vá de voar em curvas mansas. Quando lhe pareceu que bastava, deixou o aviãozito ‘cair’ em saca-rolhas, a fazer loopings, a dar cambalhotas, eu certo de que os cintos não iam aguentar. Então devo ter morrido umas dez vezes, mas escondi o medo, tão-–pouco lhe dei o gosto de ter borrado as calças, o que ele esperava e, a gargalhar, disse ter acontecido a outros.

Desde então não voltei a morrer, embora às vezes me pergunte se estou vivo e se o pandemónio à minha volta é o mundo.

 

(*) Palavra, nesse tempo as janelas das carruagens podiam abrir-se.

 

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