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J. Rentes de Carvalho

O vício do leite sem açúcar

Desde a ganância à paixão, da avareza ao desejo de matar, são tão profundos os mistérios que o próprio cérebro nos esconde, e tão surpreendentes as suas reviravoltas de pensamento e humor, que o melhor é mesmo prestar-lhe o mínimo de atenção, e desistir de tentar compreender, já que por um nada cai a gente em fobias, alergias, psicoses, sabe Deus em que outros e incuráveis achaques.

J. Rentes de Carvalho 12 de Março de 2017 às 00:30

Talvez   porque   o   meu   primeiro   contacto com ele tenha sido traumático, o leite anoja-–me.   Como   relatei   em   ‘Ernestina’,   "Sem mãe que me desse o seio, a avó Maria dos Santos tinha alarmado a vizinhança e a notícia fora de boca em boca, até de Valbom apareceram mulheres a oferecer o seu leite, aflitas por me julgarem sem sustento. De longe ou vizinhas, novas umas, outras já passadas das   primícias,   pobretanas,   burguesas,   as mulheres da vida que moravam na viela atrás do largo da nossa casa, todas elas me deram o peito com generosidade, eu em todas mamei sem discriminação nem choro."

Pode ser que todo esse desfile de seios me tenha assustado, e quando cheguei à idade de poder refilar cortei com o leite de modo radical. Mas o nojo ficou, e quando por volta dos treze anos, numa aula de História, o professor, sabe-se lá com que intenção, elaborava sobre a saúde do frágil Cardeal D. Henrique, obrigado a mamar nos seios de uma "Maria da Mota, de nobre geração", não me pude conter e, a mão na boca a demorar o vómito, nem pedi licença, saí dali a correr.

Quase vomitei uma outra vez, já homem feito, ao ouvir a confidência de um amigo, curioso de saber se eu achava estranho que a mãe lhe tivesse dado o peito já ele passava dos dez.

De facto achava, e ele explicou que era uma questão de ciúmes: os irmãos iam nascendo e, sendo o mais velho, exigia a sua parte, só parava os berros com a mama na boca. E vá de chupar.

Agora que ando a ler um sério e volumoso livro sobre a Imperatriz Cixi (1835-1908), aprendo toda a espécie de detalhes sobre a China desse tempo, as guerras, as intrigas, a política, os vícios, as traições, os costumes, o refinamento das torturas, etc.

Pois bem, muito do que leio pronto esqueço, mas vai demorar a que apague a impressão que me ficou da página 170, onde se diz que por volta dos quarenta anos, também por razões de debilidade, os médicos recomendaram à imperatriz o leite de mulher. E apeteceu-o tanto que daí até à morte nunca o dispensou, mantendo no harém um certo número de amas.

A única diferença com o nosso velho cardeal é que não mamava, as amas deitavam-–lho numa taça de jade.

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