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J. Rentes de Carvalho

Quando também fui à bruxa

A padaria do Zé Manel e da Inês prosperava de tal modo que resolveram montar ao lado um café e um salão de festas. O problema era o bebé.

J. Rentes de Carvalho 29 de Outubro de 2017 às 00:30

A padaria do Zé Manel e da Inês prosperava de tal modo que resolveram montar ao lado um café e um salão de festas. O problema era o bebé. Alegre e contente durante o dia, assim que à noite o levavam para a cama desatava a chorar. Revezavam-se os pais a embalá-lo, a acarinhá-lo, mas de nada servia, a criança só de manhã parava com o berreiro.

Durava aquilo há meses, no casal começara a desarmonia, fisicamente pareciam dois espectros, os clientes notavam a mudança. Foi então que a mulher do Veiga sugeriu que devia ser mau olhado, nada perdiam em consultar a bruxa. Não a da vila, capaz de favorecer o campo contrário, mas a de Viseu, que dava tão certo que já tinha ido à televisão.

A bruxa, uma senhora de idade com ar de médica – conta o Zé – não o deixou entrar na sala, tinha adivinhado que durante a viagem ele aborrecera a Inês, dizendo que era tempo perdido e não acreditava em patetices. Pois se pensava assim não o queria ali, esperasse no corredor.

Era de facto mau olhado de uma tia, invejosa da prosperidade deles: fazendo com que o bebé passasse as noites a chorar, os pais não recuperavam, o negócio acabaria água abaixo.

Desde então não se cansam de dizer que parece milagre como o bebé dorme sossegado, e que para eles tenham acabado as noites em branco. Claro que não se abriram com a tia, mas quando a encontram veem-na torcer a cara, de certeza por causa das figas que trazem no bolso.

Voltaram depois a Viseu, porque a obra das novas instalações não andava nem desandava. Disse-lhes "a senhora do poder" que era raiva que lhes tinha o "afilhado da outra", o carpinteiro que trabalhava na obra. Despediram-no, passado uma semana tudo começou a correr bem: os fiscais apareceram para fazer a inspecção, na semana a seguir a Câmara despachou as licenças.

Desde que chegámos à aldeia, vai fazer dois meses, há qualquer coisa que quase todas as noites nos desinquieta o cão. O carro nunca falhou, só que agora às vezes não pega. Julgando que fosse o dínamo ou a bateria levei--o à garagem, mas não encontraram nada.

Dali fui à Câmara e tropecei num degrau, torci o pé, tive de ir às Urgências. Podia ter quebrado qualquer coisa, foram só os tendões, mas enquanto não curarem, vou andar com as canadianas. No beiral, temos um enxame de vespas. Anteontem, foi o computador: novinho em folha, avariou.

Quase certo de que deve ser mau-olhado, falei ao Zé Manel. Primeiro, jurou que não podia, era segredo, mas por ser para mim e pela nossa amizade, lá me deu a morada.

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