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Correio da Manhã

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João Botelho

A adaga e o drone

Fim de tarde no Iraque, na Síria ou no Curdistão. Boa hora para começar a matança.

João Botelho 2 de Julho de 2015 às 00:30
Uma fábula contemporânea inspirada na crueldade educativa de La Fontaine? Não. Realidade cruel e educativa. Temos sido bombardeados com imagens sinistras de selvajaria arrepiante: uns tipos esguios, totalmente cobertos de negro, algures no Iraque, deixam-se filmar a cortar pescoços com longas facas afiadas e a exibirem as cabeças, pingando sangue, como troféus. Ao vivo e a cores, mais violento que o horror do ‘Coração das Trevas’, de Conrad. Oh, bestas selvagens! – vomitamos todos. (As pessoas da minha idade ainda se lembram das cabeças de negros espetadas em paus ao alto e de jogos de futebol com uma dessas cabeças, no auge da Guerra Colonial.)

Agora, a preto e branco, imagens mais difíceis de encontrar porque ao poder ocidental não interessa divulgá-las como marketing da sua superioridade. Procurem-nas no Google: "Drones versus ISIS." Um jogo de vídeo? Não. Apenas imagens de massacres impiedosos e intermináveis. Máquinas vindas de longe e do alto, comandadas a 12 mil quilómetros de distância, num qualquer bunker americano, situado em nenhures, por peritos informáticos sentados em poltronas confortáveis depois de um óptimo pequeno-almoço. Manhã nos EUA, fim de tarde no Iraque, na Síria ou no Curdistão. Boa hora para começar a matança. Um sistema sofisticado permite detectar os seres vivos pelo calor que emanam. Homens, mulheres, crianças, todos correndo desorientados, são dizimados, um a um, sem piedade. Duram horas estas imagens e é tudo tão limpo que alguns cavalos, que por ali andam, são poupados. Vomitamos todos.

A questão nunca foi o outro que é diferente de nós, mas o que o outro tem e que nós queremos. Deixem-se de guerras religiosas ou de combates de civilizações. Falem-nos antes de ganância, territórios, matérias-primas, petróleo, urânio, gás e, num futuro muito próximo, de água. Se o nosso Presidente soubesse somar como sabe subtrair (19-1 = 18, francamente!), saberia a quantidade de muros que já se ergueram no Mundo, e os que ainda se vão levantar, desde a queda do Muro de Berlim. Como já é noite cerrada, ele manda-nos fazer oó para ir sonhar com a construção engenhosa de um muro alto em volta de toda a Grécia. Mas como fazê-lo numa costa de 13 676 quilómetros e de 1400 ilhas? O sonho era pesadelo. Acordou sobressaltado.
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