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João Botelho

Acasos e bonés

Não se devia falar do caso Sócrates para não perturbar "as legislativas"

João Botelho 10 de Setembro de 2015 às 00:34
Não se devia falar do caso Sócrates para não perturbar "as legislativas". Oh, diabo, já falei! O acaso torna o tema irresistível. O número 33 da Rua Abade Faria, esse cientista luso-goês, conspirador, professor de filosofia, iniciado na prática do magnetismo animal e hipnotizador por sugestão com enorme clientela, acusado de bruxo e maníaco, conhecedor do segredo do tesouro de Monte Cristo porque Alexandre Dumas assim o quis.

Conheceria Sofia Fava a história do abade quando escolheu aquela rua? Talvez. Porque o sítio é tão excitante e tão cheio de mistérios como a vida de José Custódio Faria. Uma porta estreita, um curto corredor, umas escadas e zás, encontramos um enorme logradouro, cercado por traseiras de casas que fazem quatro ruas inteiras, e no meio um "casarão"! Maldito Google que desvenda os mistérios. Mas a piscina é aquecida? Quantas assoalhadas terá? O velho e curioso leão Soares já lá foi quatro vezes. E o rapaz das pizzas umas três. Mas infelizmente não contaram nada. Quem já falou foi Sócrates, aguentou umas 24 horas calado, para declarar o seu apoio a António Costa e dizer que vai votar PS porque foi autorizado para isso. Mas, atenção, o voto é secreto.

No outro lado da cidade, Marcelo Rebelo de Sousa demorou três horas a escolher a roupa e o chapéu com que deveria apresentar-se na Festa do Avante, tentando passar o mais discreto possível, não fossem dizer que ia "apalpar o terreno" aos comunistas para a sua putativa campanha presidencial. Escolheu umas calças, uma camisa e um boné de proletário e ninguém o apalpou. "Cada pessoa é um mundo", disse o grande Unamuno. E a vilã, Merkel, passou a "Santa Acolhedora" em menos de um credo.

Ao contrário da senhora de Albufeira que não quer receber meia dúzia de refugiados porque já perde muito tempo na fila do supermercado. E dos autarcas que acham que esses farrapos humanos prejudicam o turismo.

O papa Francisco, com o seu boné branco,  apela para que cada paróquia receba uma família de refugiados. O Vaticano tem duas e poderá assim acolher duas famílias. Demasiada modéstia, santo padre! O Vaticano é suficientemente grande e poderoso para albergar pelo menos 200 famílias. E tudo por causa de uma excelente e violenta foto de uma criança branca, morta, à beira do mar. Quantas crianças negras, mortas, de barriga inchada, já tinham sido fotografadas?
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