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João Botelho

Banalidades de Verão

Atempadamente’ foi a palavra mais ridícula e mais estúpida utilizada em Portugal em 2014.

João Botelho 6 de Agosto de 2015 às 00:30
Atempadamente’ foi a palavra mais ridícula e mais estúpida utilizada em Portugal em 2014. Qualquer político de primeira, qualquer bicho-careta de segunda a utilizava para revelar o seu toque de classe e a sua inquestionável competência. 2015 trouxe outra ainda pior: ‘expectante’, que eu não sei bem se quer dizer estar à espera de uma coisa boa, má, ou assim-assim, ou a indolência sorridente de quem não sabe absolutamente nada do futuro próximo e não tem coragem de o admitir. No leito de morte, Fernando Pessoa, lúcido, escreveu a lápis e em inglês a sua última frase, a límpida "Eu não sei o que amanhã virá!". A mim, a palavra ridícula lembra-me um antitússico e um escarro, esse insuportável mau hábito que enojava Lord Byron quando veio deambular por Sintra.

‘Expectantes!’ Encontrará Américo Amorim o rasto dos 179 milhões desaparecidos no BES/GES/TRÁS/PÁS? Deixe lá, que a sua exportação de cortiça conseguiu bater o recorde: 309 milhões! Conseguirá Álvaro Sobrinho tapar completamente as já poucas vistas que o seu inimigo figadal Ricardo Salgado ainda tem, construindo diante da propriedade um fabuloso e alto prédio? Deixe lá, os milhões ainda aparecem, porque não consta que o triângulo das Bermudas fique na rota Portugal-Angola! Será que o Miguel Relvas teme que o seu amigo José Dirceu o entale a ele, a Proença de Carvalho, a Sócrates e a Passos de Coelho? Deixe lá, pode manter ainda o sorriso brilhante que exibiu no casamento de Serralves, ao lado do Pinto da Costa. A ilha grega que CR7 ofereceu a Jorge e Sandra Mendes vale 3 ou 50 milhões? Que importa, uma ilha é uma ilha, só os poderosos e os papalvos de Hollywood as têm e pensem no Jorginho e no Cristianinho a jogarem à apanhada nas areias brancas do mar Egeu. Terão os espanhóis receio das previsões de Varoufakis que lhes aponta um destino tão grave como o dos gregos? Deixem lá, amigos hermanos, nós os portugueses iremos à frente!

Para os demais, pobres e anestesiados, as banalidades são de base e as televisões encarregam-se do espectáculo: violência doméstica, mortes na estrada, incêndios, mercado de transferências, novelas e a Volta a Portugal. Deixem lá, os migrantes africanos morrem às centenas nas praias no norte de África e nos mares do sul de Itália. E alguns nos arames de Calais. Os incêndios da Califórnia são 100 vezes superiores e a Volta à França já acabou. Em vez da raiva da revolta, invade o rosto dos pobres o espectáculo da morte. Correm lágrimas de piedade!
João Botelho opinião verão Américo Amorim
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