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João Botelho

Os chamamentos

Depois há também, para Pedro Santana Lopes, o chamamento da raspadinha.

João Botelho 3 de Setembro de 2015 às 00:30
"Pedro, venha cá!" – chamou a Santa (Casa da Misericórdia). E Pedro sozinho consigo próprio, a pensar para dentro de si, não conseguiu resistir, não sentiu forças para se desvincular deste tão solene como sagrado apelo. Uma Santa sempre é uma Santa, não é a porcaria do país, e até do nome dele "Santa" faz parte, o que é um sinal decisivo. E no entanto ele, desculpem a presunção, era o candidato mais preparado para assumir a liderança deste pobre país, mais do que qualquer outro, mais do que o autarca do norte que conhece todas as marcas de automóveis, mas só metade do país, mais do que o comentador do sul, que hoje diz uma coisa e amanhã outra, como todos já viram e ouviram e que depende da opinião dos filhos e até dos netos para decidir se avança para Belém, se dá um mergulho no Tejo ou se vai dar uma volta com a perturbada Judite de Sousa.

Bem, nas vidas privadas não nos devemos meter, se bem que as capas das revistas são públicas e as afirmações deles também. Depois há também, para Santana, o chamamento da raspadinha, essa coisa que dá dinheiro que se farta, ao contrário do país, essa invenção magnífica só comparável à via verde e às portagens das scuts. E se os pobres ficam cada vez mais pobres porque gastam os seus últimos euros na miragem de um pé de meia que os tiraria da aflição, a Santa C.M. fica cada vez mais rica e o Pedro pode administrar essa fabulosa soma, fazer obra que se veja e distribuir com caridade justa algum dinheiro pelos pobres que assim poderão voltar a jogar na raspadinha.

"Ó Pedro, venha cá" – agora é outro quem chama. E o Pedro (Passos Coelho) corre para aquele que também tem nome de apóstolo. "Esta nossa ideia extraordinária de prometer erradicar as desigualdades na próxima legislatura é uma jogada de mestres." "E acha que eles acreditaram?" "Claro, meu chefe, já viu as sondagens?", e abraçaram- -se comovidos. Comovidos andam finalmente os líderes europeus com o chamamento da tragédia das migrações.

Nem todos, porque os muros continuarão a ser construídos, mas o centro- -norte, que é mais clarividente e manda, vai distribuir os sobreviventes em campos de refugiados que podem ter pelo menos três funções: a graça misericordiosa que lava as consciências, um exemplo para conter as revindicações contra a austeridade e um exército de mão-de-obra de reserva, esse conceito marxista que nenhuma evolução histórica conseguiu destruir.
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