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João Botelho

Santo domingo

Levantam-se cedo, arranjam-se melhor, os adultos. Não é só para a missa, que há muitos outros para além dos católicos.

João Botelho 24 de Janeiro de 2016 às 00:30
Hoje é dia de eleições e pelo menos umas dez horas calmas esperam por nós. As crispações, as discussões, as opiniões, ficarão para mais tarde, lá para a hora de jantar. O meu voto teve alguma importância? As previsões estavam certas?Haverá segunda volta? E tudo será amalgamado na vozearia atropelada dos comentadores.

Jovens pais separados passeiam os filhos pela mão ou nos carrinhos de bebés e levam-nos a comer as porcarias de que eles gostam, enquanto as mulheres separadas passeiam olhando montras ou nos centros comerciais. Outros passeiam os cães nos jardins. Aos animais é permitido ladrar. Aos humanos, não. Falam baixo, cumprimentam-se e até sorriem, mesmo que saibam que o destinatário do sorriso é um adversário político. Um dia calmo e civilizado.

No meu jardim, do Príncipe Real, ninguém passeia, cercado que está por grades e esburacado pela terceira vez. A primeira correu mal, com a poeira da terra leve a voar sobre a mesa das esplanadas contra os olhos e a boca dos utentes. A segunda, pior. Com uma cola que continha pedaços de vidro que criavam perigosos problemas respiratórios. Esta terceira não sei como correrá. Espero que os arruamentos não sejam cimentados para dar uns tostões à Secil. Deve haver uma terra boa que não levante pó. Pelo menos durante uns tempos não haverá as feiras quotidianas, a do azulejo partido ou das compotas caseiras, que transformaram o meu jardim num inferno.

Entretanto, os mais novos, que se deitam tarde e se levantam tarde, indiferentes ao acto cívico do dia – ninguém lhes ensinou a importância da cidadania, nem da democracia, nem da luta de classes, nem de nada – voltam aos seus altos telefones ou aos seus telefones espertos, que lhes controlam os neurónios, lhes cansam o polegar e o indicador e lhes causam dores nos pulsos e borbulhas nas nádegas porque estão sempre sentados. A questão portuguesa principal não é a cultura, que já é uma redução das artes e do património. É a educação. E não tem a ver com os exames nem com a avaliação contínua, mas com a aprendizagem. Ao menos também não fazem barulho. E o silêncio impera por várias horas neste santo domingo. Devia haver mais dias de eleições.
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