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João de Sousa

Mestre do simulacro

Nem queríamos acreditar que era o mesmo indivíduo que todos os dias estava impaciente na fila do refeitório, com a ramela no olho.

João de Sousa 11 de Outubro de 2015 às 00:30
Cuidar das rugas, da calvície, dos cabelos brancos, do tamanho do nariz e do brilho da dentadura, bem como da indumentária, vale tanto, e às vezes mais, como explicar o que o político se propõe fazer ou desfazer na hora de governar." As palavras são de Mario Vargas Llosa, sobre o político atual, na sua obra ‘A Civilização do Espetáculo’; e o José, no domingo de eleições, estava um espetáculo! Como sempre o fez enquanto governante, deu uma atenção exclusiva ao gesto e à forma, algo que para o próprio vale mais que convicções, valores e princípios. Sócrates é o mestre do simulacro, o rei da arte dos gestos e das atitudes planeadas, o especialista em pantomima televisiva.

Todos aqui – nós que privámos com o ‘44’ – nem queríamos acreditar que era o mesmo indivíduo que todos os dias estava impaciente na fila do refeitório, ora com a ramela no olho de manhã, ou com o banho por realizar, ou mesmo com o banho realizado e a mesma roupa com que treinava vestida.

"O tempo de falar, de votar, de aguardar!" Não demonstrava aqui em ‘Ébola’ o José esta serenidade, esse domínio sábio do tempo. Quando tocava à campainha para aceder à área das visitas ou ir à enfermaria, se o profissional destacado para a abertura da porta não demorava o "tempo de Sócrates", este, qual infante contrariado, colocava as mãos nas ancas, iniciava movimentos pendulares e bufava de raiva.

Vozes do Pátio

Papagaio do Marcelo
Mas as nove vezes que José falou do tempo, oferecem outras hipóteses de interpretação. "João, o que lixa mesmo estes gajos, e o papagaio do Marcelo, é que o tempo para ele ser presidente esgota-se agora, e eu ainda tenho muito tempo e oportunidade!" Assim que o ouvi falar no tempo, recordei de imediato esta conversa.

O rosto e a mente
Um profissional dos serviços prisionais abordou-me esta semana e, discretamente, perguntou-me se tinha visto o Sócrates. Que diferença! Nem parecia o mesmo! É verdade, disse eu, e como escreveu Shakespeare, "não há arte que descubra no rosto a construção da mente", logo, o José estava visivelmente maquilhado.

Vida na cela

"Mais tabaco por favor" 
A serenidade, algo que o "José - cidadão livre que vota" demonstrou, não a víamos quando amuava porque não tinha gerido o seu tabaco e desejava, rangendo os dentes, que os guardas providenciassem "mais tabaco, por favor!

Em reclusão

Cavaco por detrás da investigação
O ‘timing’ do José foi quase perfeito: 13h00; a abrir os noticiários, mas, o Cavaco que o José há tanto tempo detesta e crê estar por detrás da investigação de que é alvo, tudo porque noutros tempos não se deram bem, roubou-lhe o tempo de antena! O Sócrates sempre disse que não ficaria preso muito tempo. 

Agora, José tem tempo para analisar o processo, consultar o mesmo, ou para ser mais preciso, ler as fotocópias dos autos; nós, vulgares cidadãos, temos de suportar um tempo diferente. Eu estou a tentar ganhar tempo, para, junto de um amigo, arranjar "fotocópias" para pagar ao advogado!
opinião João de Sousa
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