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João de Sousa

José e o Freeport

Sócrates disse-me que “a origem daquele inquérito podia ser encontrada” no gabinete do então PM, Pedro Santana Lopes.

João de Sousa 22 de Novembro de 2015 às 00:30
Um dia, estava José Sócrates preso há dois meses, e perguntou-me inocentemente, com aquela sua pose distraidamente aristocrática, se eu trabalhava na "esquadra de Setúbal". Expliquei-lhe que a Polícia Judiciária não tem esquadras, mas sim departamentos, confirmando que estava lá colocado. "Então investigou o Freeport?" Respondi-lhe que não, que não era a minha área. Divagando, hesitante, falou- -me então na "Inspetora Alice", "a mesma que o prendeu, não foi João?"; "coordenadora, José, inspetor sou eu", expliquei.

Decidiu então iniciar um longo discurso, onde referia que "a origem do inquérito podia ser encontrada" no gabinete do então primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes.

Tratou-se tudo, segundo um José convicto, de uma "manobra rasteira com o apoio da Polícia Judiciária", para inviabilizar a sua vitória nas eleições. O diretor nacional, os procuradores, os polícias, a "tal Alice", todos "juntos para me prejudicarem a mim e ao PS!". Já nesta altura, note-se, era o PS o alvo, e Sócrates o mártir.

A partir daí, não foi difícil ouvir o José a expor a sua "narrativa", difícil foi conseguir conter o riso, porque eu observei muito do que foi feito – e não feito – no chamado ‘caso Freeport’. Contive-me, aguardei, e quando o monólogo parou, para Sócrates recuperar o fôlego, avancei: "José, a única coisa que ouvi dizer nos corredores do departamento foi que o seu primo receberia quantias de dinheiro em quartos de hotel, referenciados pela investigação! Mas não sei se é verdade!"

Foi nesta altura que percebi verdadeiramente o significado da expressão "olhar que mata". Esperei… e o José disse: "Está a ver [referindo-se aos investigadores]? Medíocres, gente pequena, frustrados, calúnias." E retirou-se de seguida, deixando-me sozinho, desta vez sorrindo à vontade.

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Uma lei para governantes; outra para o cidadão comum 
Enervado, como o vi muitas vezes sempre que era contrariado, o José atacava-me por defender as escutas: "Desculpe, mas fizeram-lhe uma lavagem ao cérebro lá na escola dos polícias. Acha bem escutarem um 1º ministro?"

Mistura entre investigações passadas e o ‘caso Marquês’
Quando o josé se queixava dos investigadores, afirmando que tudo visava atingir o PS, fiquei sem saber se Sócrates se referia a investigações passadas ou ao ‘caso Marquês’. Foram tantas as "perseguições políticas", como o José se refere às investigações criminais, que este já se confunde...   


Tudo pensado ao pormenor; tudo serve um propósito
...mas Sócrates não se confunde, percebi depois. Afinal, a conversa sobre o ‘caso Freeport’ ocorreu dois meses após estar a "acompanhar" o preso 44. Estávamos ainda a conhecer-nos. A partir daí constatei que tudo no José é pensado ao pormenor, tudo visa servir os seus propósitos.  
opinião João de Sousa
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