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José Diogo Quintela

A galinha da vizinha manda na minha

O barulho é igual ao dos portugueses, mas algazarra em estrangeiro aborrece mais.

José Diogo Quintela 3 de Junho de 2017 às 00:30
Está na Bíblia a primeira referência histórica a alojamento local. Lucas 2, 7: ‘E, quando ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria’.

Naquele tempo, a falta de oferta hoteleira já criava oportunidades de negócio. José e Maria safaram-se porque alguém aproveitou um estábulo com pé direito alto e transformou-o num loft em AL. O toque rústico da vaquinha e do burrico deu-lhe o sabor local que os turistas tanto apreciam.

Tivesse Jesus nascido num hotel e teria de fazer check out até às 12h do dia 25, o que significa que os Reis Magos não lhe teriam entregue presentes. A ceia de Natal seria à base de víveres de mini-bar. Em vez de ‘nas palhas deitado’, cantaríamos ‘numa cama king size deitado’, métrica só ao alcance do Sérgio Godinho. O presépio não teria tanta graça numa suite de hotel sem musgo.

Entretanto, embora omissa dos evangelhos, descobriu-se a acta da reunião de condóminos em que se decidiu que o estábulo não mais serviria para AL:

‘Depois de aprovadas as contas do ano anterior, votou-se pela proibição de alugueres a estrangeiros no condomínio, especialmente para partos de messias, por: i) a Estrela de Belém brilhar muito e não deixar dormir; ii) o falsete do Coro de Anjos – giro de início – fazer dores de cabeça; iii) a nódoa de mirra manchar o soalho. Nada mais havendo a tratar, lavrou-se esta acta (…)’.

Passados dois mil anos, Portugal descobre o prejuízo do AL. Quer dizer, não é bem Portugal, é Lisboa. Em rigor, não é Lisboa toda, são dois bairros. E hoteleiros ricos. E pessoas que se enervam quando um barco de cruzeiro lhes tapa a vista, na Bica do Sapato. Portanto: 17 pessoas descobrem o prejuízo do AL.

Com razão, pois o turista de AL é um tipo de estrangeiro que chateia. Basta vê-lo a andar na rua, a calcar pesadamente a nossa linda calçada, para perceber o efeito que tem em prédios. Gasta escadas. Agarra corrimões com muita força. Carrega em interruptores de uma forma que gasta mais electricidade. Escangalha elevadores com a sua estrangeirice.

E há o barulho. É igual ao dos portugueses, mas algazarra em estrangeiro aborrece mais. Os Clã deviam pôr uma adenda ao ‘Problema de expressão’. Depois de ‘Devia ser como no cinema / A língua inglesa fica sempre bem / E nunca atraiçoa ninguém’, aditavam ‘A não ser que seja um turista a falá-la, aí já é maçador’.

Faz bem o PS em propor a autorização do condomínio. Há quem diga que vai prejudicar o turismo. Não creio. Reuniões em que pessoas decidem caprichosamente sobre a propriedade de vizinhos são óptimas atracções para aqueles turistas que desejam conhecer a fundo a alma portuguesa. É pô-los a assistir. Não os deixem é sentar, que desgastam as cadeiras.

Declaração de interesses
Parece que Hortense Martins, deputada do PS, sócia de uma empresa hoteleira e com cargos na Associação Hoteleira de Portugal, é a eminência parda por detrás da proposta sobre AL. Tem, portanto, interesses na matéria. Já somos dois: eu sou sócio de uma empresa que aluga apartamentos a turistas.

Infelizmente, ao contrário da deputada, não arranjei dois colegas para assinarem esta crónica por mim. Surpreendentemente, há ética entre palhaços e não consegui desencantar dois títeres para manipular.

Se há no PS quem ache que um hotel e um apartamento em AL são a mesma coisa, sugiro que, nas próximas eleições, o partido não se reúna no Altis, mas num T1 em Alfama. E que Hortense Martins fique responsável pela logística, mormente da gestão do diminuto WC.

Dr. Estranho, Amor
Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos revela que – segure-se leitor – há eleitoralismo autárquico. A sério. Também estou estupefacto. Outra conclusão deste estudo disruptivo é que, em eleições em que há recandidatura do autarca, há mais abstenção.

Ou seja, quanto mais desconhecidos são os candidatos, mais as pessoas votam. Pelos vistos, os eleitores sentem-se atraídos por estranhos. Significa que, se como previsto, Isaltino Morais for eleito, é possível que em Oeiras haja uma incidência anormal de Alzheimer.

May querida 
Theresa May, 3ª feira: ‘Corbyn pode vestir um fato para uma entrevista, mas, com a sua posição sobre o Brexit, estará sozinho e nu a negociar na UE. É uma imagem desagradável, mas o assunto é sério’. As pessoas riram. Mas se fosse Corbyn a falar de May, nem as suas irrepreensíveis credenciais esquerdistas o livravam da raiva feminista. Como foi ao contrário, não houve azar. O feminismo moderno é a consagração da mulher como pessoa indefesa.

Por segurança, não vou imaginar Corbyn nu. Ia imaginá-lo com pénis e ainda era acusado de inferir o género com base em estereótipos.
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