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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

José Diogo Quintela

A pré-lavagem da pós-verdade

Um congresso do PCP é como uma exposição sobre o paleolítico organizada pelos próprios calhaus.

José Diogo Quintela 10 de Dezembro de 2016 às 01:46
Começou ontem o estupendo Comic Con Portugal, uma convenção mundial toda ela dedicada ao fantástico, das BD de super-heróis às histórias de magia, tipo Harry Potter. O leitor não tinha ouvido falar? É natural. O interesse nesse tipo de certames foi esvaziado, depois de na semana passada ter havido outra convenção toda ela dedicada ao fantástico, mas superior ao Comic Con ao nível da efabulação.

Falo, evidentemente, do Congresso do PCP. Que criança quer ir ver um tipo mascarado de Batman, quando pode ver um comunista verdadeiro dizer que a Coreia do Norte tem um regime super fixe? Para os anglo-saxónicos, "pós-verdade" é a palavra do último ano; para os comunistas é a palavra do último século. Isso, sim, é vanguarda.

Em 1919, Lincoln Steffens, um jornalista americano, visitou a URSS e disse: "Eu vi o futuro. E funciona!" Se voltasse dos mortos e tivesse passado em Almada para assistir ao congresso, diria: "Eu vi o passado. Continua a funcionar!" O evento foi uma espécie de Web Summit, mas ao contrário: em vez de ideias mirabolantes que parecem vir futuro, houve ideias estapafúrdias directamente do passado.

Nos congressos do PCP, as conclusões são agrupadas nas chamadas teses. As teses orientam a acção dos membros. No entanto, vistas com atenção, percebe-se que não aderem à realidade. São teses do mijo.

A cobertura pela comunicação social, apesar de exaustiva, soube a pouco. Estavam só jornalistas e comentadores. Fez falta um arqueólogo, para enquadrar tanta velharia. A opinião de um Marques Mendes tem valor, mas a gente quer é ouvir o que pensa o Indiana Jones. Um Congresso do PCP é como uma exposição sobre o Paleolítico organizada pelos próprios calhaus. Aliás, a Unesco devia pensar em elevar aquilo a Património Imaterial (mas Materialista) da Humanidade.

A morte de Fidel Castro veio a calhar para ouvir uma data de curiosas variações do argumento "a austeridade aqui mata, a ditadura em Cuba, quando muito, maça". Por falta de espaço, destaco as declarações de António Filipe, deputado do PCP, ao Observador. Disse ele: "Considero profundamente injusto classificar como ditador uma personalidade como Fidel Castro". E também: "Não qualifico como ditadura aquilo que se passa em Cuba."

São duas afirmações paradigmáticas da agremiação. Um comunista é alguém que, numa conversa sobre geometria, consegue dizer: "Considero profundamente injusto classificar como um quadrado uma figura geométrica com quatro lados de mesmo comprimento e quatro ângulos retos." Ou: "Não qualifico como pirâmide aquilo que os egípcios construíram em Gizé."

Os comunistas já não comem crianças ao pequeno-almoço. Aliás, o mais provável é que não andem a comer pequeno-almoço de todo. Muito do que dizem explica-se por falta de açúcar no sangue, que dá tonturas.

Cemitério de elefantes
Fechou o Elefante Branco. É, obviamente, culpa do excesso de turistas. A oferta de prostituição típica portuguesa posta em causa pelas grandes multinacionais do meretrício, iguais em qualquer capital europeia. A galdéria lusa subjugada à rameira estrangeira.

72 horas depois da notícia, ainda não foi iniciada nenhuma petição online a protestar o fim de mais um estabelecimento de comércio tradicional. Onde está a vaga de fundo no Twitter? O post da Catarina Portas no Facebook? Mais vintage que a retrosaria ou que a mercearia, o lupanar não merece uma lágrima?

PISA: massa fina ou massa grossa?
O que é que interessa a posição de Portugal no ranking do PISA, ou lá o que é? Aquilo só mede as competências juvenis em matemática, ciências e leitura. E isso não interessa para nada. Para dar o real estado da educação, devia era medir a felicidade dos petizes. Não era preciso testes. Com um gargalhómetro tirava-se isso a limpo. Eu não quero filhos que se saibam desenvencilhar no mundo. Quero filhos que respondam a todas as questões com riso. Se vier acompanhado de baba, melhor. Já dizia o êxito musical de antigamente: "Lá vamos, cantando e rindo."

La Madonna e mobile, qual piuma al vento
A cantora Madonna, que se tinha oferecido para efectuar felatio a quem votasse em Hillary Clinton, veio agora dizer que Trump ganhou porque "a natureza feminina é não apoiar mulheres". Isso é estranho. Por duas razões.

Primeira, por Madonna ter sequer dito alguma coisa. Uma vez que 30 milhões de homens votaram em Clinton, partindo do princípio que Madonna começou a honrar a palavra logo a 9 de Novembro, ainda não tem o maxilar em condições para dizer "bom dia", quanto mais frases complexas.

Segunda, porque Madonna admite que há uma natureza feminina. Ora, a estirpe de feminismo que professa não admite diferenças naturais entre sexos. É tudo construção cultural. Detecto aqui uma contradição. Tipicamente feminina, diria a Madonna.
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