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José Diogo Quintela

António Costa gives a focus

É normal que um profissional como Costa queira feedback dos consumidores.

José Diogo Quintela 1 de Julho de 2017 às 00:30
Não fiquei chocado com a preocupação de António Costa em organizar rapidamente um focus group para saber como é que o povo avalia o trabalho do Governo durante a tragédia de Pedrógão Grande. É normal que um profissional como Costa queira feedback dos consumidores. Mas fiquei apreensivo. Se Costa quer a opinião das pessoas sobre o que poderia ter corrido melhor, é porque tem intenção de repetir a brincadeira. Entretanto, li as várias cronologias publicadas e reparei que estão incompletas. Fiz um apanhado das ocorrências em falta.
08:30 – António Costa acorda agitado. O seu velho instinto político fareja qualquer coisa. Pelo sim, pelo não, manda colocar um focus group de prevenção.
19:45 – Primeiras falhas do SIRESP. Ministra chora de nervos.
19:47 – Restabelece-se o contacto. Ministra chora de alívio.
20:11 – O Comando Central não consegue falar com GNR. Em compensação, sintoniza a Rádio Pampilhosa. Está a tocar ‘Despacito’. A Ministra chora porque alguém a pisou a dançar.
21:27 – Confrontado com as dificuldades de comunicação, o Sec. de Estado sugere que quem usa os walkie-talkies fale mais alto.
21:35 – Continuando as dificuldades de comunicação, o Sec. de Estado sugere que se desligue e volte a ligar o emissor.
21:40 – A Ministra liga a António Costa, que lhe pergunta se é urgente. Se não é, que desimpeça a linha, pois ele está a organizar um focus group. A Ministra chora, despeitada.
21:47 – Finalmente, estabelece-se contacto com Pedrógão Grande. Só que não é com o Quartel dos Bombeiros, é com a Pizzaria Geanni. Para não se desperdiçar a chamada, o Sec. de Estado aproveita e pede 12 pizzas Margherita, 6 Vegetarianas e 6 de Pepperoni. Pergunta se mais alguém quer alguma coisa.
21:48 – A Ministra chora, pois esqueceram-se de pedir pão de alho.
22:05 – O Sec. de Estado diz que, dentro do azar, tiveram sorte: dadas as circunstâncias, era pior se em vez de uma pizzaria, tivessem ligado para uma churrascaria. A Ministra chora a rir.
23:22 – A Ministra ordena que se instaure um inquérito ao funcionamento do SIRESP, por não permitir enviar emojis. Depois, chora por fastio.
00:40 – O Presidente da República chega a Pedrógão. Abraça o Sec. de Estado. Cheira-lhe a pizza. Pergunta se sobrou alguma fatia.
00:43 – Ao inteirar-se do caos das comunicações, Marcelo oferece o hotspot do seu telemóvel. Pede só 5 minutos, para acabar o download de selfies para a nuvem.
01:12 – O Sec. de Estado tenta animar o PR: "Já viu? Depois do concerto da Ariana Grande, o incêndio de Pedrógão Grande! Durante os próximos tempos não dêem mergulhos na Praia Grande."
01:57 – O Sec. de Estado pergunta à Ministra se está tudo bem, uma vez que não chora há bastante tempo. A Ministra chora.

Excêntrica
O Eurocagalhões
A Ministra diz que demitir-se seria o mais fácil. Não é líquido que assim seja. Depende da forma como a demissão é comunicada. É oralmente? Tudo bem. É através do SIRESP? Nesse caso, pode ser a tarefa mais difícil do seu mandato. A MAI disse também que o que aconteceu foi um ‘fenómeno extraordinário’.

De facto, a coincidência de haver um incêndio ao mesmo tempo que se usa um sistema de comunicações avariado e há chefias recém-nomeadas sem experiência, entre outras incompetências, é uma situação excepcional. É como se a Pedrógão Grande tivesse saído um Euromilhões, mas de cocó.

Uma proposta modesta
Depois de ler todas as avaliações que já foram feitas, julgo estar habilitado a sugerir uma solução para o pós-Pedrógão Grande. É muito simples. Trata- -se de substituir todos os eucaliptos por psicólogos.

O psicólogo é uma espécie que, não sendo autóctone, também não chateia. Bebe pouca água e faz uma mancha bonita na floresta. Bem espremidos, os psicólogos dão razoável pasta de papel. Mais importante que tudo, ardem muito devagar e podem ser treinados para, em caso de se incendiarem,correrem para longe das estradas.

Rambo
A alta tenacidade do SIRESP
O SIRESP sobreviveu ao chumbo da Comissão de Avaliação das Propostas, em 2003. Sobreviveu à censura do Tribunal de Contas e à declaração de nulidade pelo Ministério Público, em 2006. Aos cortes de funcionalidades, por causa da renegociação de Costa. A accionistas incompetentes como a SLN, a PT ou o BES. Sobreviveu a uma proposta melhor da Optimus. Sobreviveu a falhas sucessivas e a uma reportagem demolidora da TVI.

É este o problema. Há um equivoco sobre a missão do SIRESP. Não é para fazer chamadas em caso de emergência, é para chamar em caso de emergência. O SIRESP é invencível, como o Rambo. No próximo incêndio, carregue-se um Canadair com as antenas e os walkie-talkies e despeje-se tudo nos sítios ameaçados pelo fogo. É garantido que ali não acontece nada, pois o SIRESP sobrevive sempre.
José Diogo Quintela opinião
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