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José Diogo Quintela

Bilhética do capitalismo

Que atire a primeira pedra quem nunca deixou acabar o papel higiénico na casa de banho.

José Diogo Quintela 8 de Outubro de 2016 às 00:30
Ainda estou em choque. Ontem, em plena luz do dia, numa das avenidas mais movimentadas da cidade, fui abordado por um jovem de aspecto duvidoso – passe a redundância – que me perguntou: ‘Chaval, queres bilhetes de Metro? Tenho buéda cartões Viva Lisboa. Se quiseres anda ali àquele beco, meu puto. Aqui não dá, a bófia controla tudo. Mas se aparecer um à paisana, diz que estás a comprar ganza’. Fiquei com dois. Até porque andava a usar um da candonga que não funcionava muito bem. Devia ter desconfiado, quando percebi que o cartão se chamava Niva Lisdoa.

Atenção, que esta crise de bilhética também está a ter efeitos positivos. Por exemplo, está a contribuir para descongestionar de turistas o centro histórico. Já assisti a ajuntamentos de estrangeiros nas Olaias. Vieram aos ermos da cidade, atraídos por rumores de que, naquela estação, havia cartões Viva Lisboa. Chegou a polícia para pôr ordem na baderna e os turistas dispersaram. Puseram-se a apreciar a arquitectura de Tomás Taveira. Valeu-lhes a boa vontade dos agentes, que fingiram acreditar.

Entretanto, esta semana, o Metro anunciou que vai abrir mais estações. Não mostrou foi o projecto. O que se compreende, já que não há papel para fazer desenhos. A expansão da linha é uma boa opção. Se há coisa que a administração do Metro mostrou é que é óptima a criar buracos.

Mesmo em crise, o importante é haver estações. Aliás, é possível que um dos objectivos seja, em breve, atingir-se a paridade. Entre número de estações e de comboios operacionais.

As pessoas perguntam-se como é possível terem deixado o papel para bilhetes acabar. É uma indignação injusta. Que atire a primeira pedra quem nunca deixou acabar o papel higiénico na casa de banho. Às vezes deixando aquela meia folha, colada ao rolo, só para disfarçar.

Há quem diga que, se o Governo não tivesse revertido a subconcessão a privados, a nova gestão não deixava isto acontecer. Querem-nos convencer que um gestor, só por poder perder o emprego quando é incompetente, teria mais cuidado com o papel da empresa (quer o literal, quer o metafórico). É um mito. (Se bem que estes privados eram mexicanos e iam dar muito jeito devido à experiência dos túneis que cavam para entrar nos EUA).

O estado actual do Metro de Lisboa, mais do que inaptidão, faz parte do grande programa de emagrecimento que o Governo tem para Portugal. Conjugada com a gincana em que o trânsito de Lisboa se tornou, a bandalheira do metro é um incentivo a que os lisboetas andem a pé. Juntamente com a taxa para gordos, vai fazer com que os lisboetas emagreçam. Não é com a Amarela, nem com a Verde, nem com a Azul: a única linha com que este Governo se preocupa é com a dos portugueses.

VIDA DE CÃO DE CRONISTA   
Os bons cronistas usam episódios da sua vida para, sem esforço, ilustrar a actualidade. Os maus cronistas inventam factos sobre si para criarem metáforas à medida. Os péssimos cronistas, mesmo com episódios verídicos, só conseguem fazer relações óbvias. Apesar disso, anuncio que tenho em casa um cachorro e descobri que é a mesma coisa que ter este Governo: faz cocó em todo o lado, estraga o que não é seu, mas, como é muito fofinho, todos o aturam. A única diferença é que o cachorro às vezes papa o próprio cocó. Infelizmente, não creio que este Governo vá fazer isso.

AGORA, ESCOLHA! NÃO, AGORA É QUE É: ESCOLHA!  
António Costa deu uma entrevista ao ‘Público’. Quando lhe perguntaram sobre a hipótese de aumentar impostos, Costa disse que ‘o país tem de fazer escolhas’. Obviamente, o país desconfia. Da última vez que foi chamado a escolher, o país escolheu um PM e, afinal, saiu-lhe outro. A fazer lembrar o ‘Agora, Escolha!’, quando a Vera Roquete nos punha à consideração o ‘A-Team’ ou ‘Um anjo na Terra’ e os resultados eram aldrabados. Como se nós preferíssemos bons samaritanos a mercenários. António Costa é a Vera Roquete da democracia.

UMA VERDADE INCONSISTENTE
Leo DiCaprio disse que quem não acredita na teoria do aquecimento global antropologicamente provocado não devia poder candidatar-se a cargos públicos. Uma pré-selecção. Só não especifica em que outras coisas deve um candidato acreditar. Que passar debaixo de escadotes dá azar? Que laranja de dia prata, mas à noite mata?

Por coincidência, disse-o na mesma semana em que James Hansen, que há 30 ajudou a virar a agulha do arrefecimento global para o aquecimento global, publicou um estudo em que diz que a Terra está tão quente quanto há 115 mil anos. Ora, há 115 mil anos não havia sequer 115 mil humanos. E os que havia não enchiam depósitos de gasolina, não tinham fábricas, nem faziam fracking. Ou seja, afinal, é possível que o clima não dependa de nós. Não somos Homo Termostatus.
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