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José Diogo Quintela

Cheira mal, cheira a turista

Os turistas vieram e expulsaram as pessoas que viviam nas casas da Baixa.

José Diogo Quintela 18 de Junho de 2016 às 01:45
Pé enfiado em Birkenstock ante pé enfiado em Birkenstock, os turistas vieram e expulsaram as pessoas que viviam nas casas da Baixa. Quer dizer, não foram exactamente as pessoas que viviam nas casas da Baixa. As casas estavam abandonadas. A serem habitadas, era por ratos e fantasmas. Já não estão. Donde se conclui que os turistas são um misto de exterminadores e ghostbusters.

Ou é isso ou os habitantes que foram paulatinamente abandonando o centro histórico de Lisboa (entre 1991 e 2011 perdeu 40% de população), farejaram ao longe o cheiro a protector solar e, adivinhando as hordas estrangeiras, pisgaram-se para Telheiras e Alfragide ainda antes de se ouvir o primeiro "very typical!" em Alfama.

Esses lisboetas funcionaram como o Jon Snow a avisar que vinha aí o Inverno, mais os Caminhantes Brancos, mas ninguém ligou. Agora precisamos de Hodors para fecharem a porta a mais turistas. E já chega de referências à ‘Guerra dos Tronos’.

O que interessa é que agora já é tarde: os turistas chegaram (blhec!), trouxeram dinheiro (duplo blhec!), vontade de visitar Lisboa e fome para comer comida local (triplo blhec!).

É impressionante o mal que estão a fazer à cidade. As pessoas adoram dizer que há mais dinheiro, recuperam-se casas, abrem negócios, há emprego, mas esquecem o impacto negativo na vida das pessoas concretas. Vou partilhar o meu drama.

O meu casamento está a sofrer. Antes, quando íamos jantar fora, escolhíamos entre os dois restaurantes do bairro. Agora, com milhares de clientes a dar serviço a estalajadeiros, neste momento há 874 e a indecisa da minha mulher (passe a redundância), quer visitá-los a todos. Só sushis são 174. Tabernas modernas, 97. Tascas gourmet, 83.

Há jornalistas que procuram combater os números frios e impessoais que dão a impressão – redutora – de que o turismo faz bem. Mostram para além da estatística que diz que há mais emprego, contanto a história da designer vegan (amiga do jornalista) que tem a sensação que demora mais tempo a ser atendida no quiosque biológico do Chiado desde que contrataram novos funcionários que ainda não acertam com o ponto do muesli. Ao árido relatar de dados, opõem jornalismo de estados de alma.

Por outro lado, são esses mesmos jornalistas que criam os suplementos de lifestyle que anunciam todos os restaurantes e esplanadas que abrem por causa dos turistas, e onde a minha mulher me obriga a ir. Custa muito noticiar menos novidades agradáveis em Lisboa? Há um limite de ceviche que um homem pode consumir a ver o rio.

Declaração de interesses: sou sócio de uma empresa que aluga apartamentos a turistas. Mesmo que não fosse, quero achar que a minha opinião sobre os benefícios do turismo seria a mesma: o turismo faz muito mais bem do que mal a Lisboa e a cidade precisa de mais turismo.

Apelo sim, apelo não
Só quem ainda vive no tempo antigo é que acha que, para um professor português ensinar alunos franceses, tem de emigrar. Isso era antigamente, quando Passos Coelho escorraçava trabalhadores do país. O que Costa vai fazer é outra coisa: importar turmas inteiras de alunos estrangeiros para virem aprender cá. Além de criar emprego, os estudantes ainda pagam um euro de taxa turística.

Ou muito me engano, ou, agora que emigrar passou a ser giro e desejável, vão aparecer as cartas lancinantes de pais angustiados por os filhos não emigrarem.

Carta lancinante de pai angustiado por filho não emigrar
Dr. Costa, ouça o apelo de um pai desesperado. Tenho só um filho. Quero muito que ele emigre. Só que não consegue. Há muita gente à frente dele, filhos de doutores, gente rica. Nós somos humildes. (Imagine que está a ouvir a canção do Abrunhosa e do Camané, mas numa nova versão: também lamurienta, mas de alguém que quer trabalhar no estrangeiro. Comovido?) Antes, quando emigrar era mau, preferia que ele ficasse desempregado por cá. Agora que descobri que emigrar é fantástico, quero que ele parta. Ajude-me, por favor.

Telefonema do terrorista para o 112 lá do sítio
Segundo o politicamente correcto, deve ter sido assim:
- 911, qual a emergência?
- Daqui Mateem. Sou do ISIS e estou no Pulse a chacinar em nome do Islão!
- Está a fazer confusão. O Islão é uma religião de paz. Essa ideia de Islão é a caricatura racista que os nossos media transmitem. Se calhar está aborrecido porque lhe serviram um daiquiri aguado?
- Não bebo. Vim cá só para matar maricas, como Alá manda.
- Isso cheira a homofobia, tão presente na sociedade ocidental. O patriarcado, que é heteronormativo, oprime a comunidade LGBT. O Mateem está em negação e, para reprimir a sua vontade de penetrar outros homens com o pénis, fá-lo simbolicamente, com balas, não é?
- Não! O profeta diz que os larilas são uma abominação!
- Já agora, como é que teve acesso a armas? Maldito NRA! n
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