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José Diogo Quintela

Comer gelados com a testa de ferro

Os gregos tinham ‘Aquiles de pés velozes’, nós temos o ‘Salgado do saco azul’.

José Diogo Quintela 14 de Outubro de 2017 às 00:32
Um aspecto curioso destes 3 anos de Operação Marquês foi a periódica repetição, na comunicação social, das suspeitas que recaiam sobre José Sócrates. Devido à quantidade de falcatruas e à complexidade dos esquemas usados para as disfarçar, sempre que se falava no tema, recapitulavam-se as suspeitas. Para não se perder o fio à meada. No fundo, como nas lengalengas infantis. A Operação Marquês é uma espécie de Loja do Mestre André, em que em vez de instrumentos, se vão acrescentando pontos do trajecto do dinheiro. Em lugar de ‘tum, tum, tum, um tamborzinho; tiro, liro, li, um pifarito’, fica ‘pilim, pilim, ES Enterprise; pilim, pilim, Hélder Bataglia’. Daí que, ao sair na quarta-feira, reconheci logo a ladainha.

Como na literatura oral, em que os contadores de histórias repetiam certas fórmulas, para decorarem melhor. Foi assim que a Ilíada e a Odisseia circularam, até serem passadas a limpo por Homero. Os gregos tinham ‘Aquiles de pés velozes’ ou ‘Ulisses dos mil artifícios’, nós temos o ‘Salgado do saco azul’ ou o ‘Santos Silva das mil offshores’. Onde o bardo fala em ‘aqueus das belas cnémides’, os jornais referem ‘namoradas das belas ajudas em envelopes entregues pelo motorista’. O Catálogo de Navios, com o rol de comandantes, origens e números de barcos, é agora a lista de corruptores, intermediários e verbas. Pela dimensão homérica das trafulhices e a audácia épica dos heróis, faz sentido que a epopeia de Sócrates nos chegue assim.

Apesar da enormidade da acusação, não creio que Sócrates vá ter dificuldade em defender-se. Só precisa de fazer uma coisa: agir em tribunal como agia com a namorada e com os seus ministros. Se conseguiu que uma repórter tão perspicaz e políticos tão argutos não estranhassem nada, não será difícil convencer os juízes de que não praticou qualquer trapaça.

Ainda este Verão, a propósito dos incêndios, recordou-se 2005, quando António Costa, então Ministro da Administração Interna, ficou à frente do país enquanto Sócrates estava num safari de 15 dias, no Quénia. Quando voltou e mostrou fotografias dos leões e girafas, nenhum dos colegas de Governo, que sabiam quanto ganha um primeiro-ministro, desconfiou. Nem do safari, nem dos réveillons em Veneza, verões em Formentera e outras férias caras. Nem da coincidência entre decisões políticas estranhas e um estilo de vida luxuoso.

Portanto, Sócrates só tem de se apresentar aos juízes com a mesma aura de pureza com que estava perante gente tão esperta. E perante os acólitos que sempre teve no PS, nas televisões, jornais e redes sociais. Já com indícios avassaladores, todos foram defensores de Sócrates. Mesmo que agora digam que foram enganados, serviram os propósitos do chefe, foram procuradores dos seus interesses. Andaram a comer gelados com a testa de ferro.

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Já agora: Soalho - O chão que tu pisas, Zé
Omelhor momento dos interrogatórios de Sócrates é quando é confrontado com um telefonema em que Carlos Santos Silva pergunta se pode escolher uma cor de soalho mais clara. Primeiro, Sócrates justifica-se com o facto de ter melhor gosto, insinuando que o amigo é um parolo. Logo depois, justifica o facto de CSS dizer ‘posso’ em vez de ‘devo’ com o facto de, afinal, CSS ser tão polido que usa, por cortesia, uma forma gramatical única, o que faz dele o homem mais educado de Portugal. Num minuto, CSS passa de burgesso a aristocrata. No tempo de Sócrates havia mais mobilidade social.

E mais: Recordar é viver
Tenho andado no meu arquivo digital, a recordar velhas histórias de José Sócrates. Lembro com saudade quando inventou um convite para casa de Chico Buarque. Mas a história mais gira foi quando, pressionado por Sócrates para avançar com o TGV, o Ministro das Obras Públicas veio dizer que o TGV seria um óptimo negócio pois tornaria Lisboa na praia de Madrid. Se o projecto não tem borregado – não sem antes Sócrates blindar o contrato para favorecer o consórcio em caso de cancelamento –, Lisboa podia hoje estar cheia de estrangeiros.

Só para terminar: Dúvida - Esquerdista  ou carteirista?
Já é legítimo perguntar: houve alguma medida de Sócrates que não tenha sido corrupta? Não falo só em obras públicas ou decisões económicas, mas também em temas como o aborto ou o casamento homossexual. A Belino tem participação numa clínica de IVG? A Gunter faz catering em casamentos gay? O progressismo de Sócrates afinal era ganância? Será o Gordon Gekko da Covilhã?

Os socialistas estão chocados por a ideologia mais egoísta, a do interesse próprio, ter tomado imensas medidas boazinhas. Descobrem agora que Sócrates governou como imaginam que o mais malvado político de direita governaria: tanto faz se é bom ou mau para o país, interessa é receber a percentagem. A esquerda sempre lidou bem com comissários políticos, mas está abalada por lhe ter saído um político comissionista.
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