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José Diogo Quintela

Compita de choques

Guerrinha entre duas pessoas que desejam governar o país sem terem ganho as legislativas.

José Diogo Quintela 28 de Outubro de 2017 às 00:30
Finalmente! Depois de uma semana a debater ninharias, Portugal voltou a discutir o essencial. Em vez dos maçadores e repetitivos corpos carbonizados espalhados pelo país, as excitantes e inéditas picardias entre gabinetes de Lisboa.

A tensão entre São Bento e Belém é o tema do momento. Trata-se da emocionante guerrinha entre duas pessoas que desejam governar o país sem terem ganho as legislativas.

Tudo começou com o Governo a revelar-se chocado por Marcelo o ter repreendido em público. Marcelo respondeu que o país é que está chocado, com a tragédia.

Obviamente, quem tem razão é o Governo. O choque do Governo por alguém se ter atrevido a apontar-lhe responsabilidades é muito superior ao choque do país por terem morrido 45 pessoas.

Em dois anos, nunca tinha acontecido algo do género ao Governo, mas ao país já, ainda há 4 meses. O país que não se finja surpreendido.

Parece que António Costa tinha avisado Marcelo que ia despedir a Ministra. Marcelo, mesmo sabendo de antemão, pressionou publicamente Costa.

Será que Marcelo, como Costa tinha garantido ao país que não ia tomar a atitude infantil de demitir a Ministra, duvidou que Costa demitisse a Ministra? É mesmo cínico, este Marcelo, a não acreditar na boa-fé do jogo duplo de Costa.

A grande questão agora é quem vencerá este choque frontal? O Governo recupera desta terapia de choque? Contribui este caso para esfriar as relações, um choque térmico? Ou vai seguir-se um outro conflito, num choque em cadeia? Marcelo permanece como polícia do choque? Se um dia fizerem as pazes, podemos dizer que houve carinho de choques? E os jovens, será que andam nas redes sociais a dizer ‘choque não’? E o que acontecerá quando os jornais esgotarem os trocadilhos com a palavra ‘choque’ para abrilhantar cabeçalhos?

Entretanto, o PS ficou melindrado e mandou dizer que Marcelo se aproveitou do estado de fragilidade do Governo.

No fundo, Marcelo agiu como um pai que espera que o filho chumbe para o advertir, em vez de o fazer quando o filho tem óptimas notas.

As melhores práticas pedagógicas ensinam que é quando tudo corre bem que devemos admoestar.

Marcelo devia esperar pelo dia em que Costa salvasse pessoalmente 17 idosos acamados numa casa em chamas, e só então lhe ralhar pela maneira como se comporta durante os incêndios.

Ao atrever-se a referir a tragédia, Marcelo entra no rol dos aproveitadores políticos de mortos.

O aproveitamento político de mortos sucede quando alguém ousa agir ou dizer alguma coisa que envolva mortes. Se deixa de agir ou dizer, não é aproveitamento.

Como o PS tem mostrado, o decente é manter-se calado e deixar as pessoas falecerem sossegadas. O PS dissimula bem a convivência com cadáveres.

Parece um remake do ‘Fim de semana com o morto’, só que com 110 defuntos, em vez de apenas um. 

Já agora
Censura
O importante é que moções eu vi 
A moção de censura tentou concentrar a responsabilidade dos incêndios nestes dois anos de Governo. A resposta da esquerda foi dilui-la nos 900 anos de Portugal. É curioso vê-la acusar o CDS e o PSD de esquecerem o governo anterior, quando passou a última legislatura, justamente, a culpar o Governo Passos da falência e da vinda da troika, ignorando o esbanjador (e, sabe-se agora, corrupto) Governo Sócrates.

Apesar disso, a moção foi injusta. Não se pode pedir a alguém que tire conclusões políticas, se esse alguém perdeu as eleições e daí concluiu que o povo o tinha escolhido para PM.

E mais
Bloco de Esquerda, as cuecas do azar do PS 
u Em 40 anos de Democracia, o PS foi várias vezes Governo. A primeira vez que governa com apoio do BE, zás!, morrem 110 pessoas em incêndios.

Depois disto, pode-se sugerir que o Bloco é um amuleto ao contrário. São as cuecas do azar do PS. Mas não parece que se importem muito. Em 2012, criticaram fortemente o Governo, por causa dos incêndios.

Agora, com 110 mortos, é bastante mais macio. Com mil mortos, proporão uma moção de confiança. Um dia em que morram 10 mil, declaram feriado nacional. Quanto menos brando o lume, mais brando o BE.

Só para terminar
Queque
A possidoneidade de Sócrates
Das escutas da Operação Marquês já conhecidas, a que melhor ajuda a compreender a história de José Sócrates é uma das que foram publicadas na ‘Sábado’ desta semana, em que Ricardo Salgado o convida para jantar lá em casa. O que salta à vista não é o facto de existir entre eles a intimidade que Sócrates sempre negou.

As suas petas já não são propriamente novidade. O que se destaca é Sócrates tratar a mulher de Salgado por ‘esposa’. Esposa? Plamordedeus! Salgado deve ter ficado todo arrepiado.

Por mais dinheiro que tenha, por melhores roupas que vista, por mais arrogante que seja, por mais que viva no 16ème, Sócrates nunca será aceite pela casta como um deles, como era seu desejo. Salgado marimba-se para a idoneidade, mas liga muito à possidoneidade.
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