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José Diogo Quintela

Comunismo? Sim, por favor!

Comparar Marx com Costa é comparar a ‘Crítica do Programa de Gotha’ com uma crítica ao programa do Goucha.

José Diogo Quintela 1 de Outubro de 2016 às 00:30
António Costa definiu a sua sociedade ideal como aquela ‘onde cada qual contribui para o bem comum de acordo com as suas capacidades e cada um recebe de acordo com as suas necessidades’.

Só por Karl Marx ter escrito que, quando o verdadeiro comunismo for alcançado "a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades", houve logo quem, precipitadamente, acusasse Costa de defender o ideal comunista.

Não tem lógica. Tirando o sentido das citações ser exactamente o mesmo e haver correspondência entre 97% das palavras, o que é que uma frase tem que ver com a outra? Onde é que Costa fala de inscrições em bandeiras? É que nem sequer em estandartes ou pendões, quanto mais bandeiras. Esta polémica é mesmo só para embirrar.

Comparar Marx com Costa é comparar a ‘Crítica do Programa de Gotha’ com uma crítica ao programa do Goucha. Marx acreditava mesmo naquilo, enquanto Costa só quer impressionar miúdas. É como um engatatão que diz à namorada ‘A tua mãe é muito querida!’ Se Costa dependesse do apoio parlamentar do PAN, dizia que a sociedade ideal é a do Lion King. Depois, cantava hakuna matata. Costa tem a consistência ideológica do bosão de Higgs: a existir, é muito pequenina e desvanece-se instantaneamente.

Felizmente, cabeças mais frias e informadas vieram explicar que está tudo bem: o que Costa disse não tem nada a ver com o que Marx disse. E são pessoas que sabem do que falam. Afinal, são marxistas. Quem melhor do que pessoas cujo objectivo de vida é a chegada do comunismo, para nos dizerem que não temos de nos preocupar, que o comunismo não chegará?

Inclusive, esclarecem, há registo de frases parecidas na Bíblia, nomeadamente nos Atos dos Apóstolos, 4:32- -35: "Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum. Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus." São pessoas que acreditam que um falecido ressuscitou, portanto, a forma como se organizam deve ser a melhor.

Mas a justificação nem é necessária. No caso improvável de Costa acreditar realmente no que diz, qual é o mal do comunismo? Eu gostava de experimentar comunismo. Tem coisas giríssimas. Por exemplo, maça-me haver tanta escolha. Perco muito tempo no supermercado a avaliar variedades de corn flakes. Perder tempo no supermercado só é agradável se for numa fila enorme, à espera de bens essenciais racionados, para poder conversar com gente diferente.

Sei que o egoísmo é o oposto do comunismo, mas tenho uma razão interesseira para o desejar em Portugal. É que junta as minhas duas grandes paixões: sou grande apreciador de viagens e de história. Comunismo em Portugal é como visitar a exótica Venezuela ou viver no interessante séc. XIV.

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Uma análise mais cuidada
Quando me apercebi de que o debate entre Clinton e Trump ia começar de madrugada, já era tarde. Tinha tomado o barbitúrico e os minutos até desmaiar davam à conta para lavar os dentes e fazer xixi. No dia seguinte resolvi ir ao Twitter ver a análise de quem tinha assistido ao vivo. Eis alguns dos tuítes mais pertinentes: ‘Bem!’; ‘Eix!’ ‘Este gajo, realmente…’; ‘Man splaining!’; ‘Ele contradisse-se!’; ‘Estão a suar. Deve estar calor’; ‘Palhaços!’; ‘Olha!’; ‘Wtf?’.

Acompanhar um acontecimento nos comentários do Twitter é como assistir a alguém a ver um jogo de futebol na televisão.

Um taxista pior do que os das chegadas do aeroporto
Comecei a assistir ao ‘Narcos’, a série do Netflix sobre Pablo Escobar. A dada altura da sua, digamos, carreira, Escobar candidatou-se ao Congresso da Colômbia. A grande dificuldade do traficante era convencer as pessoas de que ele tinha enriquecido como dono de uma modesta empresa de táxis. O povo colombiano desconfia. O azar de Pablo Escobar foi isto ter-se passado na Colômbia de 1983, em vez de ser no Portugal de 2016. Com o proteccionismo do Estado, é fácil a um empresário do taxismo ganhar muito dinheiro.

Um turista é um investidor que desistiu
Foi preciso sair o Ranking de Competitividade para perceber porque é que parece que há turistas a mais em Lisboa. O que sucede é que grande parte dos estrangeiros em Lisboa são investidores que, deparando-se com as dificuldades em investir dinheiro em Portugal, percebem que não vale a pena e aproveitam e vão antes ver os Jerónimos. São confundidos com turistas.

No outro dia fui dar uma volta pela cidade, falar com pessoas. No Lumiar ouvi zero queixas sobre turistas a mais. Em Carnide, zero queixas. Telheiras, zero queixas. Campolide, zero queixas. Chiado, 274 queixas. Conclusão: o interesse dos turistas não é nos monumentos, é nessa jóia antropológica que é o português que se queixa da única coisa boa que ajuda a cidade. Isso é que atrai a curiosidade dos estrangeiros.
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