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José Diogo Quintela

De progresso em progresso

Quem não se lembra dos conflitos entre Vila Riba e Vila Bajo?

José Diogo Quintela 22 de Julho de 2017 às 00:30
Que semana feliz para a causa progressista! Os anúncios no metro de Londres deixam de ser dirigidos a ‘ladies and gentlemen’ e passam a sê-lo a ‘hey, everybody’. No Canadá, um pai registou um bebé sem indicação de sexo. E, de novo em Inglaterra, a autoridade para a publicidade baniu ‘estereótipos de género’ nos anúncios, como famílias em que a mulher é que lava a loiça.

Viva! Há que acabar com os estereótipos de género. Não devíamos ser classificados pelo sexo com que nascemos. O sexo é escolha nossa. Apesar do que a biologia nos pode querer obrigar a ser, temos o direito a combatê-la.
Um bebé não deve ser violentado com uma opção que pode não ser a dele. O género é uma construção social imposta. Há que acabar com a socialização de género nas crianças.

Vamos no bom caminho, mas não podemos parar por aqui. No futuro, devemos também acabar com a socialização da comida. Mal nascem, os bebés são forçados a alimentar-se. Quem nos diz que eles desejam comer? E logo leite! Deviam ser eles a escolher. Os estereótipos da nutrição coagem os recém-nascidos. Ao fim de algum tempo até parecem gostar, mas é porque foram condicionados pelo nutripatriarcado.

Dos 3, o maior avanço progressista é o da publicidade, particularmente o exemplo da loiça. Conhece-se a influência negativa que um anúncio a detergentes pode ter. Quem não se lembra dos graves conflitos sociais entre comunidades vizinhas, no seguimento dos anúncios em que Vila Riba derrotava Vila Bajo numa competição de lavagem de loiça? Muitos almoços de paelha entre bairros próximos terminaram em tragédia. Daí ser tão importante a luta contra os preconceitos desde sempre associados ao detergente.

(Pena é que, para respeitar os direitos das mulheres, se tenham de desrespeitar os direitos de outras minorias. Por exemplo, um reclame a detergentes em que a loiça não seja lavada pela mulher é incompreensível para a comunidade muçulmana. Enfim, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. Atenção: não estou a chamar nabos nem a mulheres, nem a muçulmanos).

Saúda-se, mesmo assim, o fim dos anúncios em que a mulher da casa é que lava a loiça, pois é sexismo. Se bem que também não deve ser o homem a fazê-lo, pois é mansplaining. Nem as crianças, pois é exploração infantil. Ou uma avó, pois é idadismo. Tampouco uma empregada, pois é classismo. Com racismo, se a empregada não for branca. E, caso receba menos de 100 euros à hora, esclavagismo.

Uma máquina de lavar também não pode ser, pois os robots vão tirar-nos os empregos. A solução pode ser deixar os pratos por lavar. A não ser que haja restos de bacon. Nesse caso, é islamofobia.

A caminho, derruba-se mais um estereótipo: o dos publicitários como criativos. Agora passam a ser burocratas. Em vez de terem ideias, verificam regulamentos.

Já agora
CGD - Galambombeiro Voluntário
Finalmente, um socialista salva duas pessoas de se queimarem! Ainda que metaforicamente, João Galamba, ao faltar à votação do relatório da CGD, impediu que ficassem registados os votos do PCP e do BE.

Evitou assim a associação destes dois partidos anti-capitalistas a um documento que afirma o contrário do que passaram anos a dizer. Nomeadamente, que o governo PS pressionou a CGD para conceder créditos arriscados.
O que, aliás, é falso: Santos Ferreira e Vara, colocados lá por Sócrates, não devem ter precisado de muita pressão para fazer o servicinho.

E mais
Domicília ao domicílio
O Bloco de Esquerda despediu a sua deputada Domicília Costa, por ser velha e pouco activa. É um despedimento de 5,2% do grupo parlamentar! Eu sei que, por vezes, há trabalhadores que não se adequam ao trabalho exigido. Mas eu sou um porco capitalista. Agora, o Bloco?
Estará a aburguesar?

Se calhar, esta tendência - a mesma por trás do fechar de olhos à CGD - foi responsável por não aprovar o voto de pesar para Américo Amorim. O novo Bloco Explorador acha que Amorim era brando de mais com os seus funcionários.          

Só para terminar
Floresta - Um banco de enterras
Não se via um Governo PS querer tanto um banco desde que José Sócrates mandou Armando Vara e Carlos Santos Ferreira financiar malta para ficar com o BCP. A única diferença é que este é um banco de terras e o outro era um banco em que enterrámos.

O objectivo da esquerda deve ser, no próximo incêndio, poder dizer "mais um banco que arde". E, claro, atacar os proprietários que fazem dinheiro com eucalipto. Apesar de, como especialistas já disseram, a percentagem de área ardida que é área de eucaliptal ser inferior à de área agrícola (13% e 14%, respectivamente).

Claro que o grande problema de fazer dinheiro com eucalipto não é ser eucalipto, é fazer dinheiro. Mas percebe-se: não é preciso distinguir um eucalipto de uma oliveira para ter cara de pau.
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