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José Diogo Quintela

Efeito de estucha

Pode ser que a ironia seja como o Óscar e que um dia, depois de lhe escapar durante anos, DiCaprio chegue a ela.

José Diogo Quintela 19 de Novembro de 2016 às 01:45
Vi ‘Antes do Dilúvio’, o documentário de Leonardo DiCaprio sobre o clima. Como história do aguaceiro que castiga a traquinice da humanidade, não é original. Todas as civilizações têm o seu mito encharcado, cada qual com o seu deus maldisposto e o seu herói construtor naval. No mais antigo, a Epopeia de Atrahasis, o deus sumério Enlil queixa-se de que "o barulho da humanidade é muito intenso / com os seus gritos não consigo dormir". Então, como quem atira um balde de água a um casal de gatos fornicantes debaixo da janela, envia o dilúvio. Avisado, Atrahasis constrói uma arca. Outros mitos têm outras divindades, que por sua vez adjudicam o navio a outros armadores, como Ziusudra, Utnapisthi ou Noé.

Passados tantos séculos, a história mudou. Até porque o mito original da Arca é demasiado ofensivo para os dias de hoje: não só Noé calafetou a arca com o poluente betume, como também os animais que embarcam vêm aos pares de macho e fêmea, uma estrutura familiar retrógrada que discrimina outros tipos de uniões progressivas. Deus pensou nos protestos feministas e LGBT que ia ter de ouvir e, em vez de uma preconceituosa arca, mandou DiCaprio fazer um inclusivo documentário.

Mais uma vez, trata-se da atribuição de significado moral a manifestações incontroláveis do clima. Porém, agora, a humanidade propõe-se aplacar a Natureza cumprindo penitência antecipada: prescindir dos recursos com que pode mais facilmente proteger-se quando o dilúvio chegar. Chegar ao cume do Monte Ararate, sem ser de carro, há-de ser chato. É como se Noé começasse a construir a arca incendiando toda a madeira disponível.

Não quer dizer que o documentário não tenha imagens chocantes. A do gelo no Ártico, por exemplo. É chocante ver DiCaprio lamentar o gelo que se solta para o mar, quando deve a sua carreira, justamente, a um filme sobre um pedaço de gelo que se soltou para o mar.

Todavia, de todas as consequências do aquecimento global mostradas por DiCaprio, a mais dramática é a das filmagens do ‘The Revenant’ terem sido mudadas do Canadá para a Argentina por não haver neve suficiente. Sem isso, o filme poderia ter tido um lucro de 63 milhões de dólares, em vez de apenas 62 milhões de dólares. Não precisei de ver mais. Apaguei imediatamente a TV. Não será pelo meu consumo egoísta de energia que Hollywood será prejudicada.

Em entrevistas sobre ‘The Revenant’, DiCaprio queixou-se das condições de rodagem, em que actuou como as pessoas de facto viviam em 1835, naquelas regiões inóspitas. Hoje, os habitantes desses sítios já não têm de viver assim. Por causa da energia abundante e barata fornecida por combustíveis fósseis. Pode ser que a ironia seja como o Óscar e que um dia, depois de lhe escapar durante anos, DiCaprio chegue a ela.

Um problema sem resolução
EUA votam contra resolução das Nações Unidas a condenar nazismo" é o título de uma notícia do ‘DN’. Lê-se e, afinal, o que os EUA chumbaram foi a resolução "Combater a glorificação do Nazismo, Neonazismo e outras práticas que contribuem para alimentar formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância relacionada", por acharem que ataca a liberdade de expressão. Ou seja, a notícia desdiz o título. O que levou os EUA a combater o nazismo em 39/45, levou-os a votar contra esta resolução. Contra estes títulos, infelizmente, há pouco a fazer.

Normaliza, filho, normaliza  
Parece que há imensa gente indignada por se estar, supostamente, a normalizar Donald Trump. ‘Normalizar’ é desvalorizar o que Trump disse na campanha e o que se prepara para começar a fazer. Parece-me excelente indignação.

A última coisa de que precisamos são apaziguadores que relativizam, justificam, toleram e entendem todas as malfeitorias. Justamente o que os que se escandalizam agora sobre a normalização de Trump fazem com tudo o que soe a fundamentalismo islâmico, esse fenómeno que fazem questão de ‘compreender’.

Mãe há só todas as que nos apetecer
Uma marca espanhola lançou uma campanha para que a definição de ‘mãe’ no dicionário deixe de ser "mulher ou animal fêmea que pariu um ser da mesma espécie". Quer-se uma definição que vá mais ao encontro do que cada pessoa acha que a sua mãe é. Apesar de a palavra ter outras 15 definições, a primeira ofende. Obviamente, pois limita a maternidade à fêmea e a filiação a um ser da mesma espécie, impedindo três homens de serem mães de um leitão.

Editar um dicionário já foi uma empresa mais difícil. Antes, era preciso saber de etimologia e semântica, agora basta escutar o coração e escolher definições que não magoem. É uma ideia idiota. (Normalmente, tento usar linguagem menos básica, mas tenho medo de que a seguir mudem o significado de ‘idiota’ e quero aproveitar enquanto posso.)
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