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José Diogo Quintela

Espontaneidade programada

Se uma pessoa festejar um golo no tuíter, mas ninguém a ler, ter-se-á mesmo alegrado?

José Diogo Quintela 29 de Julho de 2017 às 00:30
Uma das actividades ridículas que pratico é a programação de espontaneidade.

Quando recebo um SMS com piada e quero mostrar que achei graça, em vez de martelar à balda no ‘a’ e no ‘h’, até aparecer algo como ‘ahhahhahahaa’ – uma abandalhada demonstração espontânea que mimetiza o riso natural – o que faço é redigir ‘ah’ e, através de um atalho previamente configurado no telemóvel, aparece um artificial – mas gramaticalmente correcto – ‘Ah, ah, ah!’ Os meus amigos queixam-se, dizem que não percebem se estou a rir com vontade ou com sarcasmo, tal a secura da gargalhada.

Quando me apontam isso, limito-me a responder ‘Ah, ah, ah!’
As redes sociais estão a mudar a forma como nos relacionamos com as pessoas de quem gostamos. Mas também com as pessoas de quem não gostamos.

O meu vizinho de baixo tem um óptimo traço de carácter e um mau traço de carácter que transforma o óptimo traço de carácter em péssimo traço de carácter.

É do Sporting (óptimo traço de carácter), mas tem um serviço de TV cabo diferente do meu (mau traço de carácter), de maneira que costuma festejar os golos do Sporting (óptimo traço de carácter) cerca de 5 segundos antes de eu os poder ver, escangalhando a emoção (óptimo traço de carácter transformado em péssimo traço de carácter).

Ultimamente, porém, deixou de o fazer. A princípio, achei que fosse por o Sporting andar a não marcar golos. Entretanto, percebi que se meteu no tuíter. Agora, em vez de gritar impulsivamente "gooooolo!", vai para o computador teclar impulsivamente:
‘Guli!’
‘Gilo!’
‘Golo!’
‘porcaira co corrector’
‘Do corrector’
‘Afnal é fora de jigo’
‘Jogo’
‘Entretanto, enquanto escrevia isto, a outra equipa marcou. Merds!’
‘Mwrda!’
‘Merda!’

É como estar a ver futebol sozinho, ser golo, não o festejar logo e guardar a alegria até chegar gente a casa, para então desatar aos gritos. Antes, as pessoas explodiam de felicidade, estivesse quem estivesse. Agora, querem mostrar felicidade a pessoas específicas que costumam andar nas redes sociais.

Alguém que, no dia seguinte, ao consultar o seu Twitter, pensará: "olha, ontem o Carlos jubilou com o tento da sua equipa, às 21.17.

Espera! Afinal, parece que não, era fora de jogo. Pobre Carlos, neste carrossel de emoções tão bem demonstrado em 3 minutos de tuítes". Gera-se empatia dessincronizada. Duas pessoas comungaram da mesma alegria e posterior frustração, mas uma foi de noite, a outra na manhã seguinte.

Esta espontaneidade programada é a versão cibernética da pergunta filosófica sobre árvores que caem sem ninguém ao pé. Se uma pessoa festejar um golo no tuíter, mas ninguém a ler, ter-se-á mesmo alegrado? 


Já agora
Boybeiros Voluntários
Há bombeiros agastados com as chefias da Protecção Civil. Parece que são inexperientes, havendo mesmo alguns elementos do aparelho do PS metidos ao barulho. Discordo da tese de impreparação da rapaziada do aparelho.

Partindo do princípio que o aparelho do PS é tão bom quanto o do PSD, possui habilitações essenciais ao combate de incêndios. Nomeadamente, a organização logística de evacuações. É malta habituada a ir buscar pessoas e dar boleias até aos locais de votação.

Portanto, basta colocar uma urna num sítio a salvo das chamas e é certinho que o boy do aparelho vai lá levar toda a gente. 

E mais
Do espaço vê-se a lata de António Costa 
António Costa anunciou que o combate aos incêndios está a ser um sucesso. 80% dos incêndios são controlados em 90 minutos e apenas um ou dois continuam a merecer a atenção da Comunicação Social.

Só mesmo por mesquinho bota-abaixismo é que alguém prefere olhar para as 65 vítimas mortais em vez de evidenciar os 9 999 935 portugueses que não faleceram.

Desde que o PM voltou de férias, os incêndios portugueses deixaram de se ver do espaço.

Agora a única coisa que se consegue ver é a enorme lata de Costa, a reflectir a luz do Sol.

Só para terminar
Sócrates
A minha hipótese de ficar na História 
Segundo a Visão, José Sócrates queria que o Grupo Lena, com a intermediação de Armando Vara, na altura no BCP, adquirisse o jornal Público à Sonae.

É, antes de mais, uma bofetada descentralista nas fuças da elite lisboeta: trata-se de um provinciano da Covilhã a conspirar com um rústico transmontano e um grupo de saloios de Leiria para comprar um jornal a uns merceeiros da Maia. E, sendo eu na altura cronista do Público, estive quase, quase, a ser enfiado no saco azul mais famoso de Portugal.

Foi a minha chance de ter o nome na História, ao lado de figuras como o filho do Pedro Silva Pereira, Sofia Fava, as senhoras que lhe ligavam a pedir dinheiro, Domingos Farinho, Rui Homem de Ferro, o senhor de idade que assinava Manuel Abrantes, entre outros. Nunca perdoarei a Paulo Azevedo ter recusado.
José Diogo Quintela opinião
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