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José Diogo Quintela

Estado Minion

A sua mão esquerda desconhece a existência das contas que a mão direita assinou.

José Diogo Quintela 16 de Dezembro de 2017 às 00:30
De início achei que a culpa do que se passou na Raríssimas era do famigerado Estado mínimo, a ausência do controle da máquina oficial. Mas depois, com os pormenores, percebi que afinal a culpa é do Estado Minion.

A diferença é entre ter o Estado ao serviço das pessoas ou ter o serviço de pessoas do Estado. No Estado mínimo a presença do Estado faz-se através de uma discreta fiscalização; no Estado Minion essa presença faz-se através de figuras do Estado que funcionam como ajudantes fofinhos e desastrados, que estão lá para compor o cenário e serem manobrados pela vilã na persecução de objectivos maléficos.

É esse o papel do Ministro Vieira da Silva, da deputada Fertuzinhos, do Secretário de Estado Delgado ou do deputado Leite. Como os Minions, estes altos servidores do Estado também não fazem ideia do que andam lá a fazer. Quando o embaraço passar e deixarem de estar corados, vai-se ver que até são amarelos.

Porém, não acredito que Vieira da Silva tenha sido conivente com nenhuma malfeitoria. É alguém bem-intencionado que pratica caridade como Nosso Senhor nos ensinou: percebe-se que a sua mão esquerda desconhece a existência das contas que a mão direita assinou.

Afinal, o Estado deve ou não retirar estas instituições à iniciativa privada? Os cínicos dizem que não. Se o Estado não consegue fiscalizar uma associação, quanto mais tomar conta dela. Os cínicos ordenam as tarefas por grau de dificuldade e concluem que, se o Estado cumpre mal a mais fácil, não há-de cumprir bem a mais difícil. Estão enganados. Toda a gente tem um amigo parvo que garante que guia melhor quando está bêbado.

Segundo o palerma, quanto mais alcoolizado está, mais cuidadoso é. "Em condições ideais não guio lá muito bem, mas cada copo de vinho aproxima-me do Niki Lauda". O Estado é esse género de fanfarrão: acha que quanto maior for a exigência, melhor será o desempenho.

Entretanto, os cínicos aproveitaram o ensejo e não se calaram. Começaram logo a criticar a nomeação da nova Secretária de Estado da Saúde, Rosa Zorrinho, por ser mulher do eurodeputado socialista Carlos Zorrinho. Como se, por ser casada com um destacado membro do PS, Rosa Zorrinho não fosse competente e tivesse de ser impedida de trabalhar. É um raciocínio que inquina o debate público.

O raciocínio correcto devia ser: se X é recrutada e é mulher de Y, que por acaso trabalha com Z, que é quem recruta, não é sinal de compadrio. É, pelo contrário, sinal que X é muito mais qualificada do que os outros candidatos. Como o escrutínio sobre estas relações familiares é tão grande, Z não se arriscaria ser alvo de suspeita se X não fosse mesmo muito competente. Ou seja, Z não faz um favor a X e Y, faz um favor à comunidade. Eu, pela minha parte, agradeço a estas letras todas. Obrigado.

Camaradas cônjuges 
A acusação de nepotismo e de ‘endogamia socialista’, a propósito do novo emprego da mulher de Zorrinho e do facto de Sónia Fertuzinhos ser companheira de Vieira da Silva, é pura maledicência política. Para mais, sem qualquer fundamento. É óbvio que Zorrinho só soube do novo emprego da mulher e Vieira da Silva só soube da viagem da companheira pelos jornais.

É pela comunicação social que os casais socialistas comunicam. Não é por acaso que há uma namorada de Sócrates que disse que nunca desconfiou de nada porque vinha nos jornais que ele tinha fortuna de família.

Plausível é quando o homem quer 
Segundo noticia o ‘Público’, a Juíza Joana Ferrer absolveu Manuel Maria Carrilho dizendo que "Bárbara Guimarães é uma mulher destemida e dona da sua vontade, pelo que não é plausível que na sequência das agressões tenha continuado com o marido em vez de se proteger a si e aos filhos".

Azar tiveram Goering e outros Nazis, por não terem juízes destes em Nuremberga. Magistrados que assinalassem o facto de, sendo os judeus destemidos e donos da sua vontade, não era plausível que, na sequência de gaseamentos, não se tivessem pisgado.

Rui Rio, um mártir do aborrecimento 
O vencimento de Rui Rio enquanto Vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral da Ordem de Contabilistas escandaliza qualquer pessoa de bem. E até, julgo não exagerar, qualquer pessoa de mais ou menos. Num país da União Europeia, em pleno século XXI, é inconcebível que se paguem 1500 euros por mês, mais subsídio de Férias e 13º mês, para assistir a três reuniões.

Mas o que é isto? Só 21 mil euros? Para conduzir reuniões com dezenas de contabilistas a falar sobre contabilidade? Que género de asceta é este que se propõe a passar por isto? Rui Rio deve estar a cumprir alguma penitência. Só de ouvir falar em balancetes já deve ter as orelhas assadas.

Se, entretanto, se descobrir que também faz parte dos órgãos sociais da igualmente excitante Ordem dos Notários, deve ser imediatamente canonizado.
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