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José Diogo Quintela

Fazer pouco do Governo pelos dois

Austeridade estava certa. Para quê desperdiçar dois corações, quando um faz o trabalho eficazmente?

José Diogo Quintela 20 de Maio de 2017 às 00:30
Finalmente. Ao fim de 53 anos de tentativas, conseguimos descobrir a fórmula para ganhar a Eurovisão. Ao contrário do que se tem dito, o segredo não foi a simplicidade. Também não foi a falta de efeitos especiais. Ou de coreografias lascivas. Nem o remorso dos povos europeus, que nos quiseram compensar por, em 1997 terem brindado o tema ‘Antes do Adeus’, de Célia Lawson, com uns redondos zero pontos. Não, o segredo foi a temática. Há muito que a Europa suspirava por uma cantiga sobre órgãos do corpo humano que trabalham por duas pessoas. Agora que temos a chave, é replicá-la. Para o ano, concorremos com ‘O meu estômago pode digerir pelos dois’. No ano seguinte, ‘A minha vesícula pode armazenar bílis pelos dois’. Depois, ‘O meu baço pode fazer aquilo que o baço faz pelos dois’, ‘A minha laringe pode pigarrear pelos dois’, ‘O meu apêndice pode infectar pelos dois’, e por aí adiante.

Entretanto, a vitória na Eurovisão está a ser aproveitada pelos apoiantes do Governo como bandeira no tempo novo, o tempo em que triunfamos lá fora como os conquistadores dos Da Vinci, em que os números da economia parecem o balão da Manuela Bravo, em que os partidos da esquerda têm um discurso mais sincronizado do que o playback do Carlos Paião. Em que o Governo pega no povo e dá-lhe e dá-lhe e dá-lhe e dá-lhe e dá-lhe e dá-lhe e dou, como os Gemini. Em que Costa ri- -se e dá-nos a volta à cabeça, como a Dina. Talvez esteja a exagerar nas referências festivaleiras. Julgo que já chega, este rol é bem bom. Como as Doce.

Mas esta colagem do Governo à vitória de ‘Amar pelos dois’ é extemporânea. Desde a ‘Tourada’ que Portugal não tinha uma música tão subversiva. A letra está inteligentemente construída para parecer uma balada de amor, quando, na verdade é uma canção de intervenção. Salvador é o novo Zé Mário Branco. Um experiente funcionário do Exame Prévio não teria dificuldade em interpretar que ‘O meu coração pode amar pelos dois’ é um elogio ao anterior governo e uma crítica ao actual. O que Salvador diz é que a austeridade estava certa. Para quê desperdiçar dois corações, quando um faz o trabalho eficazmente? Os socialistas, esses esbanjadores, é que são tipos para reivindicarem até dois corações por pessoa. Três, se for funcionário público. Salvador advoga a temperança no que concerne ao uso perdulário de órgãos vitais. ‘Amar pelos dois’ é um hino pró-troika.

O acinte anti-governo é tanto que, como naqueles quadros de revista em que cabia sempre mais uma referência ao Botas, Salvador ainda consegue meter uma farpa no Ministério da Educação. ‘Talvez devagarinho possas voltar a aprender’ é uma óbvia reprovação sarcástica do programa Qualifica, com as suas atribuições de diplomas em tempo recorde a quem quer ‘voltar a aprender’. Embrulha, Zeca Afonso.

A seita protege os audazes
Carlos César, enquanto líder parlamentar do PS, sugeriu, para vogal do Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais, alguém que não é seu familiar. Por outro lado, não é da família, mas pode-se dizer que é da ‘la famiglia’, uma vez que se trata de Ricardo Rodrigues, o ex- -deputado que, em 2012, furtou dois gravadores a jornalistas da ‘Sábado’. Passados estes anos, RR já não está no gamanço, é Presidente da Câmara de Vila Franca do Campo. É bom sinal: quando Carlos César começa a oferecer trabalho a ex-condenados, quer dizer que já não tem familiares desempregados.

Ransomware, malmequer, muito, pouco ou nada
391, incêndio destrói a Biblioteca de Alexandria. 1204, cruzados destroem a Biblioteca de Constantinopla. 1755, terramoto destrói a Biblioteca de Lisboa. 2012, instalação do iOS 7.3.2., destrói as fotografias das minhas férias em Albufeira. E, agora, este ataque cibernético que sequestrou computadores no mundo inteiro.

Antigamente, era preciso um cataclismo para se perder uma biblioteca. Agora basta uma avaria num pinchavelho informático e fica tudo escangalhado. Não, mas sem contactos e arquivo de mails, vale a pena viver?

Desperdício de boas desculpas
A orquestra entrou fora do compasso. Coincidência?’. ‘O lobby do ex-Pacto de Varsóvia protegeu-se’. ‘O Salvador foi o 11º a cantar. O número 11, na tradição azteca, é o do azar’. ‘A canção búlgara foi a última, para todos se lembrarem melhor dela’. ‘Uma prima minha tem uma amiga que estava na Islândia e tentou votar na nossa canção, mas não conseguiu. Suspeito!’

Ao ganhar a Eurovisão, Salvador Sobral deitou fora uma mão- -cheia de desculpas de grande qualidade. É um desperdício indecente de boas justificações. Se é para continuar a ganhar certames internacionais, o povo português vai ter de reciclar o miserabilismo e aprender técnicas de conversação pós-vitória. A bem da sustentabilidade, terá de apostar na fanfarronice para substituir a lamúria.

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