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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

José Diogo Quintela

Luvaria Ulissalgado

Então ele, que era Primeiro-Ministro, recebeu 23 milhões, mas meros funcionários da PT receberam 25 milhões cada?

José Diogo Quintela 4 de Março de 2017 às 00:30
Todos os dias aparecem novas lojas históricas em Lisboa. Esta semana foi a Luvaria Ulissalgado, uma espécie de Luvaria Ulisses, só que com luvas ligeiramente mais caras.

Os interrogatórios a Ricardo Salgado e a Hélder Bataglia lembram o filme ‘Os Suspeitos do Costume’. Mesmo não estando lá, fala-se é do patife mítico que ludibria toda a gente que o quer agarrar: Keyser Shozé Sócrates.
Sócrates deve estar furioso. Não por se estar a provar que recebeu dinheiro de Salgado. O que o irrita é estar-se a provar que recebeu menos dinheiro de Salgado que Henrique Granadeiro e Zeinal Bava. Então ele, que era Primeiro-Ministro, recebeu 23 milhões, mas meros funcionários da PT receberam 25 milhões cada? Que brincadeira é esta?
Ainda por cima, enquanto Bava e Granadeiro puderam estar repimpados a receber avultadas transferências directamente para as suas contas bancárias em sítios chiques como Suíça e Singapura, Sócrates viu o seu dinheiro a saltitar entre offshores de amigos e teve de combinar encontros com motoristas que lhe entregavam envelopes com fotocópias. Bava e Granadeiro recebiam verbas, Sócrates era corrido a carcanhol, como um pelintra. É mau sinal, quando o suborno é mais viajado que o subornado.

O dinheiro de Bava e Granadeiro chegava limpinho e em grandes tranches. Já o de Sócrates vinha aos bochechos e era obrigado a superar uma espécie de gincana. Era um suborno e uma prova dos Jogos Sem Fronteiras. Só faltava cada transação ser comentada pelo Eládio Clímaco e pela Serenella Andrade.

Eládio – Neste jogo os concorrentes têm de ligar a um amigo, solicitar ‘10 mil livros do Duda’, ir ao pé-coxinho com o ovo equilibrado na colher de pau, entregá-lo ao João Perna, recolher o envelope e adivinhar o intérprete do tema musical que estamos a ouvir. Difícil!

Serenella – E José Sócrates vai jogar o joker! A pontuação é a dobrar!

É óbvio que Sócrates foi discriminado, vítima do preconceito classista dos snob Espírito Santo. Granadeiro era amigo da casa, os Bava são das melhores famílias goesas, mas Sócrates não passava de um rústico beirão. Ainda nos anos 90 dizia ‘maple’ e usava uns blazers cor-de-vinho pavorosos. Podem ter recebido todos do saco azul, mas enquanto Bava e Granadeiro receberam de um saco azul Louis Vuitton, Sócrates recebeu de um saco de plástico do Minipreço.

Ao ler sobre os milhões que Salgado distribuiu por muitos outros, é natural que Sócrates se sinta encornado. Não deixa de ser bem feito, para perceber como se sentiram as amigas dele, ao descobrirem, pelas escutas, que não eram as únicas a receber prendas.

Do ponto de vista jurídico, esta revelação é a melhor estratégia de sempre do MP. Conhecendo a vaidade de Sócrates, é provável que ele venha confessar estes e outros subornos, só para poder gabar-se de ser o maior a ser corrompido.

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Dar o arroz é mau das duas maneiras
A PSP montou uma linha SOS de apoio aos árbitros vítimas de coacção. Óptima iniciativa, mas vem tarde. Devia ter sido instalada há mais tempo, com gastrenterologistas de plantão, para ajudar vítimas de indigestões, diarreias, gases e outras moléstias provocadas pelas comezainas com que o Benfica obsequia árbitros. De certeza que ia haver telefonemas destes: "Dói-me o fígado! Comi lampreia a mais na Catedral. E vinho. E farófias. E uísque. Era à discrição, sou capaz de ter exagerado." A não ser que a coacção seja menos grave por vir acompanhada de um pratinho de presunto.

A raposa trotskista dentro do galinheiro
Não podia estar mais de acordo com a nomeação de Francisco Louçã para o Conselho Consultivo do Banco de Portugal. A sua experiência enquanto coordenador do Bloco de Esquerda vai ser muito valiosa. Quer o Banco, quer o Bloco, são duas instituições que contribuem para o descrédito do capitalismo em Portugal. Uma de forma mais deliberada do que a outra, conceda-se. Ainda assim, se deixadas à vontade, ambas acabarão por aniquilar a economia de mercado no nosso país. O objectivo é o mesmo, só muda a táctica.

Próxima paragem:Júlio de Matos
Um juiz espanhol proibiu a circulação de um autocarro com um reclame que diz ‘Os rapazes têm um pénis e as raparigas têm uma vulva’. Parece que a biologia atenta contra a dignidade dos transexuais. Mudou-se para ‘Os rapazes têm pénis? As meninas têm vulva?’, mas a polícia diz que, mesmo isso, viola a lei da publicidade em meios de transporte. Julgo que só resta uma hipótese: afirmar que o autocarro é, na realidade, um urso, e que as letras afinal são números. Há alguma lei contra números em ursos?

Se a mais básica das distinções entre homens e mulheres, a dos órgãos reprodutores, não existe, então é porque não há diferença entre homens e mulheres. Logo não há gays, não há sexismo, mudar de sexo é redundante e, subitamente, o Bloco de Esquerda e a Isabel Moreira deixam de fazer sentido.
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