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José Diogo Quintela

O Farinho ampara

Farinho é um Cyrano de Bergerac, o que faz de Sócrates os Milli Vanilli da ciência política.

José Diogo Quintela 15 de Outubro de 2016 às 00:30
O grande escândalo desta semana não foi a atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan, foi a sua não atribuição a Domingos Farinho. Tudo bem que Bob Dylan conseguiu convencer o mundo de que era escritor, mas Domingos Farinho conseguiu convencer o mundo de que José Sócrates é escritor. Empreitada bem mais árdua.

Domingos Farinho, segundo a comunicação social, é um jurista que terá ajudado Sócrates a escrever o best seller ‘A Confiança no Mundo’, assim como o próximo êxito editorial, ‘O Dom Profano’. Mas, já se sabe, a comunicação social não é de fiar. Por exemplo, dizem que Farinho é licenciado em Direito quando, na realidade, depois de redigir parte da tese de Sócrates, já tem meio mestrado na Sorbonne. É curioso constatar que Sócrates deve o percurso académico aos Domingos: a licenciatura ao dia da semana; o mestrado ao jurista a quem pagou para fazer os TPC.

Farinho é como que um Cyrano de Bergerac que, em vez de empolgantes cartas de amor, redige enfadonhos tratados políticos. O que faz de Sócrates os Milli Vanilli da ciência política. O Ministério Público considera que Domingos Farinho recebeu 100 mil euros de uma empresa de Rui Mão de Ferro, sócio de Carlos Santos Silva, para escrever para Sócrates. Portanto, temos um tipo chamado Mão de Ferro que é testa de ferro de um ex-PM com muita lata. Uma espécie de sucata de aldrabice.

Normalmente, chamam-se escritores-fantasma a estes autores. Sucede que José Sócrates já é um cadáver político. Será possível haver um fantasma de um fantasma? Um meta-fantasma? O que se sabe é que, para nos saírem cartas de condução fajutas, há a Farinha Amparo; para assinarmos livros de ciência política aldrabados, o Farinho ampara.

Recapitulando: Sócrates paga milhares de euros para que escrevam os livros e depois paga outros milhares para que os comprem. Só não paga aos leitores. O que é injusto. São quem mais merece.

Pelo título, achei que o livro fosse um romance autobiográfico sobre um padrinho da máfia. Tipo: ‘Dom Profano liga a Dom Corleone Santos Silva e pede para entregar fotocópias ao motorista Fredo Perna, ao mesmo tempo que ordena que o juiz Carlos Brasi vá dormir com os peixes’. Afinal, parece que não, é sobre lideranças carismáticas e pretende corrigir e actualizar a teoria de Max Weber. Como irá Sócrates enriquecer o pensamento de Weber? O filósofo alemão postulou três tipos de líderes: os que lideram por carisma, os que lideram por terem sido eleitos e os que lideram por ser essa a tradição. Suponho que, segundo a experiência recente, José Sócrates possa acrescentar que, além desses três tipos, há os que lideram mesmo não tendo carisma, não tendo sido eleitos, nem havendo tradição de tal coisa. Será um capítulo dedicado a António Costa.

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Já agora: Dom Profano - Mundo, apresento-te o livro
Resolvida a autoria, sobra a apresentação do livro. Num mundo perfeito, seria o próprio Max Weber a elogiar o tuning que Sócrates fez às teorias originais. Sendo essa ressuscitação um favor que nem o melhor dos amigos poderia fazer a Sócrates, o que sobra? Os suspeitos do costume. Suspeitos, literalmente. O primeiro livro foi apresentado por Lula, de maneira que agora faz sentido que seja aquele passarinho em que Chávez encarnou, que costuma conversar com Maduro. Não precisa de ser o passarinho verdadeiro, claro. De qualquer modo, também não estará ao lado do autor verdadeiro.

E mais: O caminho faz-se protestanto, não se faz de Uber 
Neste momento, uso a Uber se vou para perto, se o caminho é fácil ou se quero dizer a frase "esse GPS está a triangular mal". Uso táxi se não sei o caminho, se só quem conhece o trânsito sabe escolher o melhor trajecto ou se ir na faixa BUS ajuda a chegar mais depressa. Uso a Cabify para manter a Uber e os Táxis em sentido. E uso o metro se não me apetece ir e preciso de uma desculpa para não aparecer.

Esquisito como os funcionários dos transportes que prestam o pior serviço são os que têm os postos de trabalho mais seguros.

Só para terminar: Carmen - Mais uma obra de arte para o Índex
Fui ver a ópera Carmen. Fiquei espantado. Não pelo que vi, mas por ter conseguido ver. Não devia haver um piquete de feministas a impedirem a entrada e a xingarem o público?

Afinal, é a história de uma mulher morta pelo namorado ciumento. É violência de género lírica, que começa com piropos e assédio de soldados a uma rapariga. Parecido com o teledisco de C4 Pedro que gerou revolta.

Aliás, é pior: além de sexismo, há racismo sobre ciganos; há uma fábrica de tabaco; há tourada; e há apropriação cultural de Bizet, que escreveu sobre espanhóis, sendo francês. Carmen é o pesadelo molhado dos activistas da indignação. Se ainda não saíram à rua é porque não existe um cartaz grande o suficiente para caber tudo o que está mal com a Carmen. A Portucel deve ser sexista.
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