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José Diogo Quintela

Poliquestões da multidiscriminação

Cada serviço público deveria ser munido de um obarómetro, que mede opressões.

José Diogo Quintela 25 de Fevereiro de 2017 às 00:30
O Governo vai combater a multidiscriminação. Isso é positivo, pois ser vítima de preconceitos simultâneos é multimau. Muitas vezes, um homossexual muçulmano sofre por não saber se é discriminado por se prostrar ante Alá ou por se prostrar sob um mocetão chamado Alan. A multidiscriminação permitirá a amálgama de pluriqueixas numa unidenúncia. Porém, há poliquestões sobre a lei, que desejo colocar à firma de advogados que a vai redigir:

1. Numa repartição, discrimina-se uma lésbica africana. O sexismo representa 57% dessa multidiscriminação, contra 29% de racismo e só 14% de homofobia. Não se estará a discriminar discriminações? Se uma maxidiscriminação suplanta uma minidiscriminação, significa que há intradiscriminação na multidiscriminação, configurando metadiscriminação.

2. Imaginemos que um corcunda é bem atendido no guichet. À primeira vista, tirando a bossa, nada a apontar. Ora, sucede que ele foi discriminado pela marreca, mas favorecido por ser branco. Embora haja soma zero de discriminações, elas existiram. Haverá fiscalização destes casos em que, por trás de uma suposta adiscriminação, se oculta uma infradiscriminação e uma supradiscriminação, conjugadas em submultidiscriminação?

3. Se o funcionário trata mal toda a gente, parece apenas indelicado. Na verdade, não estaremos perante a temida pandiscriminação?

4. Um homem é mal atendido num serviço público. Volta no dia seguinte. Continua a ser mal atendido. Mas, entretanto, decidiu mudar de sexo. Ou seja: o que ontem aparentava ser grosseria, afinal era misoginia. É retrodiscriminação.

5. A lei prevê a discriminação por associação, quando se é marginalizado por estar com um membro de uma minoria. Concordo. Mas, suponhamos que um caucasiano, mesmo guarnecido por um cigano, é bem atendido. Parecendo que não, ocorre discriminação: um cigano que, extraordinariamente, não origine segregação é favorecido em relação a outros ciganos, mesmo antes de lá irem. Caso flagrante de antidiscriminação a encobrir protodiscriminação. E, se o cigano beneficiar disso, endodiscriminação.

6. Preocupa-me a articulação desta lei com a recente lei das prioridades. Ao dar-se primazia a uma grávida sobre um negro, a situação de excepção da grávida é suficiente para superar a condição permanente de subjugado do negro? Ou há semidiscriminação?

7. Uma funcionária chama ‘monhé’ a um utente, que lhe chama ‘vaca’. Pior a xenofobia ou o machismo? Cada serviço público deveria ser munido de um obarómetro, que mede opressões. Pode ficar ao lado do extintor.

8. Legalizada a eutanásia, se o Serviço Nacional de Saúde passar um homem branco à frente de um sírio, na lista de espera, estará a discriminar ou a favorecer? Por um lado, passa-o à frente; por outro, mata-o primeiro.

Há que pluriconsiderar bem as poliquestões da multidiscriminação.

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Já agora: Acordo Ortográfico - A/C Prof. Malaca Qaxtelairu
Durante muito tempo fui contra o Acordo Ortográfico. Entretanto, tive uma filha. A partir daí, face às bochechas super fofinhas, o meu rigor esboroou-se. Por isso, quando ela me apareceu com este desenho (na foto), em que escreveu ‘oma fexeta’ em vez de ‘uma festa’, não tive dúvidas e fextegei. Compreendi que o fundamental é que as pessoas escrevam como ouvem, porque a fonética é que é fixe, ortografia é opressão e etimologia é fascismo. O que interessa é que todos tenham oportunidade de serem felizes como só as crianças analfabetas de cinco anos são.

E mais: 10 mil milhões? Só?
Também fiquei perplexo com a notícia de que, entre 2010 e 2014, saíram de Portugal 10 mil milhões de euros, rumo a offshores. É surpreendente que tenha cá ficado algum. Onde é que se pode ter dinheiro em segurança?
No BES? Apesar da mestria de Salgado, o banco faliu. No BANIF? Pois. No BCP? Está sempre à beira do colapso. No Montepio? Cheira a esturro. No BPI? Aqueles angolanos e espanhóis não inspiram confiança. Na Caixa? Têm um buraco de 5 mil milhões. Quem não consegue pôr em offshores, enfia em molaflexes.

Só para terminar: Indignação - Um só li tá, quem está ofendido, onfendido está
Aloja de roupa Primark deixou de vender uma t-shirt da série ‘The Walking Dead’ que dizia ‘eenie, meenie, miny, moe’. Um casal inglês ofendeu-se profundamente, porque é o início de uma lengalenga infantil, tipo ‘um dó li tá’, que, afiram eles, é racista, porque acaba em ‘catch a nigger by his toe’. Não sabia, de maneira que fui indagar à Wikipédia. Afinal, parece que não é bem assim. A racista é uma de dezenas de versões. A original é um ritual divinatório pagão de bárbaros saxões. O que resolveria a questão, se eu não tivesse a certeza que o casal indignado iria reclamar à mesma, com a queixa de se tratar de ‘apropriação cultural’.
Ainda por cima, o tal ritual divinatório é uma farsa. Se os rijos saxões tivessem adivinhado que iam acabar por gerar descendência tão melindrada, abstinham-se de procriar.
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