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José Diogo Quintela

Síndrome de sofá Stockholm

É a incompetência portuguesa melhorada pela organização nórdica.

José Diogo Quintela 10 de Setembro de 2016 às 00:30
Em Julho adquiri um sofá Stockholm no IKEA. Marcaram a entrega para 18 de Agosto. A 17 recebo um SMS a avisar que, como combinado, o maple será entregue no dia seguinte. Não foi. Ligo para o IKEA e informam-me que o sofá afinal não será entregue nesse dia, uma vez que não existe. O sofá, não o dia. O dia existe, apesar de perdido. Pergunto quando existirá, dizem que não sabem. Daqui a dois dias? Não sabem. Duas semanas? Não sabem. Dois anos? Não sabem. Posso falar com um superior? Não. Posso fazer uma reclamação? Não, tem de ser na loja. Não dá por mail? Não, mas dá por carta.

Resumindo: contactam-me para receber um sofá que não se sabe se virá a existir. Neste momento, tenho com uma peça de mobília a relação de fé que algumas pessoas têm com Nª Srª de Fátima. Com a diferença de o meu sofá não ter sido avistado por um único pastorinho.

Isto é o IKEA a aprimorar Portugal: estamos perante a tradicional incompetência portuguesa, só que melhorada pela meticulosa organização nórdica. É ineficiência eficaz.

Em Portugal a incúria nunca é completa, há sempre maneira de a contornar. Ou choramingando no guichet, ou metendo uma cunha, ou subornando o funcionário. Dá-se um jeitinho. No IKEA, não há jeitinhos, há normas que regulam o desleixo. Não se é baldas à balda. Os suecos encaram a incompetência como se fosse a montagem de um armário. Só há uma maneira correcta de se prestar mau serviço de qualidade, que é seguir escrupulosamente as instruções. Daí que, já na loja, a conversa presencial tenha sido tão pouco esclarecedora quanto a telefónica.

O sofá, ainda sem existir, está agora em rota. Para onde? Não sabem. E datas, podem avançar? Não, pois não possuem elementos. Habituados ao clima adverso da Escandinávia, os nórdicos sabem que é inútil lutar contra os elementos. Ou a falta deles.

Mas o IKEA não se limita a profissionalizar a nossa falta de profissionalismo. Tem mobilado a psique nacional, antes decorada na Moviflor, de outras maneiras. Por exemplo, ao não permitir que se chame o responsável, o IKEA opõe-se à tendência portuguesa de procurar a protecção do Estado. Ao não haver, sequer, um responsável com respostas, sublinha o igualitarismo da sua sociedade, face ao elitismo do nosso país de doutores. Ao dificultar a queixa, combate a delação pidesca. Ao negar previsões, encoraja o português a desembaraçar-se sozinho. É a ética protestante da bricolage. O ethos nórdico ‘faça você mesmo’ a sobrepor-se ao ethos português ‘alguém há-de fazer’.

Por isso é que a ida à loja não foi em vão. Adquiri um conjunto de facas Snitta e vou agora à lezíria esfolar o cabedal a uma vaca, para fazer o meu próprio sofá. É o efeito do espírito IKEA: exorta à acção e contraria aquela inércia, tão portuguesa, de esperar sentado. Até porque, sem sofá, isso é impossível.

Rocha Andrade faz falta à claque 
Depois de a Galp ter levado membros do Governo em passeio a Paris, o 1º Ministro mandou fazer um código de conduta. Corrijo: depois de se descobrir que a Galp levou membros do Governo em passeio a Paris, o 1º Ministro mandou fazer um código de conduta. Acho mal. Desde que a Galp deixou de levar Rocha Andrade a jogos de Portugal, nunca mais ganhámos. Rocha Andrade é o amuleto da sorte da selecção. É uma espécie de Éder. A diferença é que Éder é o melhor que temos no banco, a saltar e resolver. Rocha Andrade quer o melhor que temos no banco, antes de resolver assaltar.

Quem será o empreiteiro desta construção de egos?
Gasta-se muito tempo a criticar as obras públicas desnecessárias ou mal feitas, e pouco a louvar quando o Estado constrói bem. Gostaria de parabenizar o empreiteiro responsável pela construção da sala de interrogatório do Ticão onde o Juiz Carlos Alexandre costuma conversar com José Sócrates. Depois de ver a entrevista dada pelo juiz à SIC, calculo que a sala seja de estupenda construção, porventura com vigas extra e paredes reforçadas. É o mínimo, para conseguir albergar dois egos daquele tamanho sem se desmoronar.

Não há fumo sem fogo totalitarista   
Entretanto, o Governo vai proibir que se fume perto de escolas e hospitais (não é ‘dentro’, é ‘perto’), ao mesmo tempo que vai equiparar os e-cigarros a cigarros. Ou seja, o Estado português não está só preocupado com a saúde do povo. Não, vai mais além em termos de totalitarismo e preocupa-se também com o ridículo do povo. O Governo quer proteger os portugueses de fazerem figuras de parvos a soprar um pífaro de neblina. O e-cigarro, lembro, é um dispositivo electrónico produtor de vapor que, ao ser inalado, proporciona satisfação ao utilizador, vexame a familiares e gozo a quem observa.

Quem também não aprecia fumadores é o ISIS. Chega a chicoteá-los em público. Mas nem o ISIS, também muito picuinhas com o estilo dos seus cidadãos, vai ao ponto de chatear os e-fumadores.
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