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José Diogo Quintela

Tratado de Quesefodologia

Não será má ideia o Prof. Eduardo Lourenço começar a escrever ‘O Labirinto do que se foda’.

José Diogo Quintela 9 de Julho de 2016 às 00:30
Graças ao excelente trabalho que a imprensa desportiva portuguesa faz de recolha do excelente trabalho jornalístico da imprensa desportiva estrangeira, Portugal ficou a saber como é que Cristiano Ronaldo incitou João Moutinho a marcar um dos penáltis contra a Polónia. É pena a comunicação social portuguesa alocar tão poucos meios à cobertura do Euro, senão podia ser que também apanhasse estas pérolas. Infelizmente, tem de optar entre isto e entrevistas a emigrantes eufóricos.

Já passou uma semana e, por isso, chego tarde a este tema. Tenciono compensar o atraso usando numa única crónica o maior número possível de analogias entre a situação específica em que foi proferido o ‘Tu bates bem. Se perdermos, que se foda’ original e diversas situações da vida portuguesa. É uma questão de tempo até começar a ser usado nas colunas de opinião, de maneira que assim gasto já algumas possibilidades da construção sintática ‘tu efectuas qualquer coisa bem + condição + que se foda’. Cá vai:

António Costa para Mário Centeno: ‘Tu baralhaste os números bem, Mário. Se quiserem sancionar, que se foda’.

José Sócrates para Carlos Santos Silva: ‘Tu guardas as minhas fotocópias bem. Se ouvirem esta conversa em código, que se foda’.

Paulo Portas para empreiteiro da Mota-Engil: ‘Tu usas areia mais barata, para a gente ganhar bem. Se o prédio cair, que se foda’.

Editor para José Rodrigues dos Santos: ‘Tu inventas factos históricos bem. Se alguém refilar, que se foda’.

Durante séculos, o verdadeiro espírito lusitano, a alma portuguesa, foi definida pela ‘saudade’. Não mais. A ‘saudade’ foi substituída pelo ‘que se foda’.

Apesar de, numa primeira análise, não parecer, são conceitos muito próximos. ‘Saudade’ é pensar no que sucedeu, no passado. ‘Que se foda’ é não pensar no que aí vem, no porvir. São ambas formas de borrifar no futuro. Uma virando-lhe as costas, outra fazendo-lhe um manguito.

‘Que se foda’ devia ser o lema do país. Se eu mandasse, vertia isto para latim e bordava na bandeira, mesmo ao meio do escudo. O ‘que se foda’ explica Portugal e os portugueses. Enquanto um inglês proferiria a ordem directa ‘fuck it’, um português prefere não se comprometer e avança com a incerteza do conjuntivo. Hipoteticamente, foder- -se-á, mas não há garantias. O português alija responsabilidades. Sacode a foda do seu capote. A foda substantiva há-de aparecer dada por alguém. Por quem? Isso já não sabe. E, francamente, é falta de educação perguntar. Não se deve meter o nariz na vida íntima das pessoas.

Pelo sim, pelo não, talvez não seja má ideia o professor Eduardo Lourenço começar já a escrever ‘O Labirinto do que se foda’.
José Diogo Quintela opinião
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