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José Diogo Quintela

Um género de fluidez

Estava tão atento à fluidez de género que me distraí com outro género de fluidez.

José Diogo Quintela 31 de Dezembro de 2016 às 01:45
Numa casa de banho de Nova Iorque deparei-me com este sinal: "A diversidade de géneros é bem-vinda. Por favor, use a casa de banho que melhor se adeque à sua identidade ou expressão de género".

O primeiro instinto foi: ‘Nã, vou à do costume’. Mas depois, pensei: ‘Estou em NY! Até já fui a uma exposição de Arte Contemporânea e a dois bares de jazz. Arrisco e vou à das mulheres!’ E pus-me na fila. No instante seguinte, tive dúvidas: ‘Acabo de me referir a esta casa de banho como ‘das mulheres’. O estereótipo instituído pelo patriarcado está enraizado em mim. Será que sou um machista que finge ser moderno para ver senhoras em cuecas?’

A dúvida indispunha-me. E a vontade de urinar, também. Resolvi perguntar a um dos funcionários, habituado a turistas vindos de países incivilizados, o que achava. ‘Whatever, man’, foi a resposta. Por um lado, apreciei a indiferença do ‘whatever’, como quem diz que não há escolhas erradas. Mas, por outro lado, tratou-me por ‘man’, achando abusivamente que, apenas por ser um homem, eu sou um homem. Só não fiz queixa porque o funcionário era afro-americano e, ao queixar-me de ser oprimido, estaria a oprimir.

Entretanto, a filosofia foi subalternizada pela fisiologia. Optei pela ‘dos homens’, por ser mais rápida. Só que, lembrei-me, estaria a tirar partido do acaso anatómico que, injustamente, favorece em celeridade o portador de um pénis. Voltei, então, à fila dita ‘das mulheres’, solidário para com a lentidão de quem urina sentada.

Apesar de os reaccionários estarem a desconfiar da minha indecisão, mantive-me firme. Até porque a rigidez de pernas era a única forma de conter a urina dentro do organismo.

Infelizmente, embora tenha resistido com galhardia à pressão social, sucumbi à pressão dos rins, de maneira que urinei nas calças. Estava tão atento à fluidez de género que me distraí com outro género de fluidez. Conclui, com vergonha, que a minha bexiga é misógina.

No entanto, tratou-se de um momento duplamente libertador. Primeiro, pelo alívio (e também pelo quentinho nas pernas); segundo, por ter percebido que acabara de elevar a luta pela igualdade a outro nível. A questão já não é ‘por que devemos fazer xixi na casa de banho do género atribuído à nascença?’

A questão realmente progressista, é ‘por que devemos fazer xixi na casa de banho?’ Porque não no lobby do teatro? ‘Casa de banho’ é uma construção cultural que perpetua a marginalização de detritos metabólicos discriminados, como a urina, face a outros que a sociedade tolera, como o suor. A casa de banho é um instrumento opressor ao serviço do apartheid de excreções.

Foi o que tentei explicar aos polícias, enquanto me algemavam. Sem sucesso. Nem a vanguardista Nova Iorque está preparada para aceitar que urina é apenas água transgénero.

Há mortos que aborrecem
A direita anda amofinada pela diferença de tratamento noticioso dado aos 5 mortos nas urgências do Garcia da Orta, em Janeiro de 2015, e o dado aos 6 mortos nas urgências de Santa Maria, em Dezembro de 2016.

A direita teima em não perceber que: os primeiros não são apenas mortos, são vítimas de homicídio por banda do Governo PSD/CDS; os segundos também não são simples defuntos, são cobardes reaccionários que se deixam morrer só para manchar o estupendo trabalho do Governo PS/BE/PCP. Fazem bem os jornais em não reportar, pois trata-se de uma espécie de cadáveres fake news.

O código da estrada é islamofóbico
Depois dos atentados de Nice e de Berlim, está na altura de admitirmos que o código de estrada ocidental é islamofóbico. Há mais regras discriminatórias além da de não se poder atropelar grupos de pessoas a mais de 50 quilómetros por hora.

Por exemplo, a regra da prioridade a quem vem da direita é preconceituosa: por vezes dá-se o caso de um homem que vem pela esquerda ter de ceder passagem a uma mulher. Blasfémia. Há que tornar as regras de trânsito mais inclusivas. E, já agora, prender João Catatau por discurso de ódio.

Não praticarás o revivalismo dos anos 80!
A morte de Prince e de David Bowie já tinha sido um aviso. Agora, com o falecimento de George Michael, Carrie Fisher e do coro militar russo que fazia as bandas sonoras de filmes passados durante a Guerra Fria, julgo que já não é possível disfarçar: Deus está farto da nostalgia dos anos 80 e quer que a humanidade acabe com isso, já.

Faz sentido. A maneira como as pessoas falam das memórias da década de 80 tresanda a idolatria. Os anos 80 são uma espécie de bezerro de ouro do século XX. É natural que Nosso Senhor esteja ciumento.

Durante a dita década, foram muitos os Domingos em que menti às minhas tias, dizendo que já tinha ido à missa, só para poder ficar a ver o ‘MacGyver’ e o ‘Justiceiro’. Se fosse a David Hasselhoff e a Richard Dean Anderson, punha-me a pau. Deus não esquece.
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