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Leonor Pinhão

Trezentos minutos

FC Porto já jogou no campeonato nacional contra dez por nove vezes durante 300 minutos.

Leonor Pinhão 18 de Março de 2017 às 00:30
Ofutebol mudou muito. Quer dizer, o futebol propriamente dito não mudou nada. Aqueles 90 minutos mantêm-se obedientes a dúzia-e-meia de regras, muito claras, que tornam o essencial acessível à inteligência de todos, incluindo criancinhas. Por vezes, há quem queira mexer nas leis deste jogo. Ainda recentemente apareceu um sujeito holandês a clamar pelo fim do offside, essa regra sem a qual qualquer burro pode ser um razoável futebolista.

Imagine-se uma coisa destas. Não foi, portanto, o futebol que mudou nos últimos anos. Foi o público. Os adeptos, os associados e até os curiosos, que são imensos, à força de tanto noticiário e debate sobre economia, finanças e gestão dos clubes de futebol passaram a comportar-se como técnicos de contas sapientíssimos de balancetes e conscientíssimos das terríveis debilidades de tesouraria das suas grandes associações desportivas que vão fazendo pela vida neste cantinho da Europa.

Assim se explica o indisputado fair-play com que encaixaram as esperadas más notícias os valentes adeptos do Benfica e do FC Porto que viajaram até Dortmund e até Turim para apoiar, ao vivo, as suas equipas nas respetivas decisões destes fatais ‘oitavos’ da Liga dos Campeões. Certos das dificuldades operativas dos seus conselhos de administração, conhecedores de todos os orçamentos, cientes dos valores do mercado e informados da nada desprezível quota-parte que, feitas as contas, lhes coube nesta edição do grande negócio do futebol europeu, os adeptos portugueses que estiveram nas Arenas do Dortmund e da Juventus despediram as suas equipas, consumadas as eliminações, com cânticos de louvor e trovoadas de aplausos.

Será um sinal de progresso, este racionalismo que não se deleita em lamúrias? Das duas, uma: ou é um progresso porque os adeptos se viram livres da cegueira e reconhecem as limitações próprias ou, na realidade, não é progresso nenhum porque o que os adeptos do Benfica e os do Porto pretenderam ao ovacionar as suas equipas foi, muito interesseiramente, não as deixar cair em depressão depois das respetivas derrotas internacionais num momento em que se aproxima, a todo o vapor, o Benfica-FC Porto para o campeonato nacional. Que é o que interessa, como todos estamos de acordo.

Para o FC Porto, porque jogou com 10 durante 100 minutos dos dois jogos com a Juve, será grande conforto voltar a jogar na Liga onde já jogou contra 10 por 9 vezes durante 300 minutos. Faz toda a diferença como se viu em Turim, em Vila do Conde, no Funchal, em Santa Maria da Feira, no Estoril e, em casa, com o Sp. Braga, com o Chaves, com o Tondela e, pela segunda vez, com o Nacional. É muito minuto.

É uma mudança não ir para o Besiktas em vez de não ir para o Porto   

E pronto, outro ano se passou. Cá estamos por março com o seu rol de promessas de mais uma primavera a caminho. Verdes como nunca, os pastos aparecem agora salpicados de florzinhas brancas e amarelas, é a vida do campo.

A vida da cidade, por março, também apresenta as suas costumeiras manifestações que anunciam a estação. Nomeadamente em torno dos quiosques onde a população se junta para espreitar as primeiras páginas dos jornais constatando que, este ano, pela primavera, é o Besiktas o clube interessado em assegurar os serviços de Jorge Jesus. No ano passado, pela primavera, era o FC Porto.

E por três vezes nas anteriores seis primaveras, foi também o FC Porto que se viu descrito como clube interessado nos mesmos serviços de Jesus. Tal como, na realidade, nunca foi para o Porto, o treinador também não vai, na realidade, para a Turquia. Mas é uma mudança não ir para o Besiktas em vez de não ir para o Porto. Um ligeiro cambiante primaveril não menos encantador.
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