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Luciano Amaral

Debaixo do tapete

A crise do euro parece económica, mas sempre foi sobretudo política.

Luciano Amaral 14 de Dezembro de 2015 às 00:30
Nunca foi boa ideia varrer para debaixo do tapete as coisas feias de que não se gosta, pela razão simples de que elas ficam lá e um dia reaparecem.

Mas toda a gestão da crise do euro, que vai quase para uma década (os inícios são de 2007), parece um enorme exercício do género. Os excepcionais resultados da Frente Nacional (FN) nas eleições regionais em França ilustram-no na perfeição, sobretudo por não representarem uma aberração francesa.

Recorde-se como François Hollande chegou à presidência em 2012: ele era o candidato que ia acabar com a austeridade de "Merkozy", primeiro em França e depois na Europa.

Passados uns meses, já andava a propor pacotes de austeridade ainda mais severos do que os anteriores. A partir daí, a sua popularidade caiu a pique, até se tornar no presidente mais impopular da V República. Junte-se a isto a já antiga (e também varrida para debaixo do tapete) tensão com a comunidade islâmica de França, mais uns terríveis atentados terroristas e temos o ambiente ideal para a destruição do sistema político francês.

Eis Hollande, mas não quer dizer que Sarkozy não tivesse também andado a varrer para debaixo do tapete os problemas da França no euro, embora de maneira diferente.

A abordagem de Sarkozy teve apenas a vantagem de ser a aceitável para a União Europeia (UE) – o que obrigou Hollande a regressar a ela. Mas o que a UE tem feito é também varrer o problema para debaixo do tapete: o que significa a sua interminável e inconsequente austeridade? E este é o problema de todos os países do lado errado do euro.

Viu-se na Grécia: anos de austeridade levaram à revolta do Syriza, destruindo o sistema político, até a revolta do Syriza acabar ignobilmente na austeridade anterior.

Parece que em Espanha também o sistema político caminha para a implosão nas próximas eleições. Por cá, temos um governo que, como o Syriza e o Podemos, se situa fora do sistema político tradicional e diz que é possível acabar com a austeridade.

A avaliar pelos exemplos anteriores, ainda vai acabar a aplicar uma super-austeridade, descredibilizando ainda mais o sistema político em vez de o regenerar. A crise do euro parece económica, mas sempre foi sobretudo política. Uma crise política como há muito não se via.
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