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Luciano Amaral

Lava Telefone

A parceria entre o Estado e um grupo criou algo de parecido a um feudalismo de terceira geração.

Luciano Amaral 27 de Julho de 2015 às 00:30
Parece que há suspeitas de corrupção na venda pela Portugal Telecom (PT) da brasileira Vivo à Telefónica e na compra pela PT de parte da também brasileira Oi e na compra pela Oi de parte da PT em 2010. Era de prever que o cheiro a escândalo chegasse à PT, porque não há melhor exemplo do capitalismo rentista criado em Portugal com as privatizações dos anos 90 do que essa empresa.

A PT começou a ser privatizada em 1994, com a ideia governamental explícita de criar um monopólio privado. Dizia-se que só dominando o mercado interno a PT ganharia escala para competir lá fora. Ao mesmo tempo deixou-se, na privatização, que o Banco Espírito Santo (BES) trocasse as suas acções da Rádio Marconi (que vinham de antes do 25 de Abril) por acções da PT. Em 1995, já o BES dominava a PT, apesar de deter apenas uma minoria do capital (à roda de 5%). O Estado, que viria a ficar com um pouco menos, distribuído entre a ‘golden share’, a Caixa Geral de Depósitos e a Segurança Social, foi o seu grande parceiro. Assim nasceram os preços proibitivos das telecomunicações que ainda hoje pagamos e que serviram para financiar o Grupo Espírito Santo (GES). Henrique Granadeiro confirmou à Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o GES que, desde 2000, a maior parte da tesouraria da PT ia para o GES. Mas Jorge Jardim Gonçalves, na sua biografia, diz que já desde 1994 tudo na PT era "cozinhado" por Ricardo Salgado.

De resto, Salgado e José Sócrates ganhariam uma relação para a vida quando, em 2006-2007, Sócrates usou a ‘golden share’ para impedir a compra da PT pela SONAE. Mas já antes Estado e BES tinham lançado a PT em aventuras internacionais delirantes (muitas vezes ruinosas), de que o Brasil foi o maior exemplo – como no processo que levou à criação da Vivo. Tanta caixinha tinha de resultar na promiscuidade entre Estado e PT agora revelada pela Justiça. Apurar se existiram crimes é importante, mas antes disso vale a pena notar este verdadeiro ‘crime económico’: a parceria entre o Estado e um grupo criou algo de parecido a um feudalismo de terceira geração, que foi usado para financiar, simultaneamente, o grupo e os desvarios estatais, tudo em prejuízo do de senvolvimento do país.

Reformas estruturais? Aqui está uma que nunca se fez.
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