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Luciano Amaral

Usos e costumes

Esses usos e costumes são os da prendinha, do jeitinho, da cunhazinha.

Luciano Amaral 24 de Julho de 2017 às 00:30
O caso das viagens a jogos do Euro 2016 pagos a membros do Governo tem passado por coisa menor, mas a verdade é que se trata de um retrato exemplar do mundo político-empresarial português, num certo sentido mais grave ainda do que qualquer caso de corrupção.

A corrupção é sobretudo episódica, existindo a propósito de casos específicos, seja de projetos ou de responsáveis públicos. Já casos como o das viagens revelam os tais ‘usos e costumes’ de que fala a lei.

Ora, esses ‘usos e costumes’ são os da prendinha, do jeitinho, da cunhazinha, em suma, da promiscuidade entre políticos e empresas.

Note-se que os famosos secretários de Estado que se demitiram não passam de três casos numa longa lista de outros responsáveis políticos, deputados e autarcas a quem a Galp ofereceu o miminho de uma viagem a Paris, de um bilhete para um dos jogos de futebol mais procurados e de uma pequena estadia numa das cidades mais turísticas do mundo.

Não vale a pena dizer que se trata de pequenos montantes, entre 1000 e 3000 euros.

Desde logo, porque não são assim tão pequenos, depois, porque a questão não está aí: está em saber como vão estas pessoas um dia defender o interesse público quando ele colidir com o interesse de empresas tão simpáticas.

Bem pode o presidente da Assembleia da República dizer que são questões de "lana caprina", mas é de lana caprina que se fazem os hábitos, os usos e os costumes dos regimes.

A gente parece que os está a ver: todos contentes por terem cargos importantes ("mãe, sou ministro", já dizia o outro), que até dão direito a bilhetes da bola à borla, enquanto os donos das empresas julgam, com razão, que os amolecem com uns fiapos da dita lana caprina.

No final, sobra um género de pandilha feita de trocas de favorzinhos, almocinhos e pequenas coisinhas que vão minando o interesse público. Nem é preciso corrupção.
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