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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

António Marinho e Pinto

Charlie, não mudes!

A justiça cabe apenas ao estado. Trata-se de dar os ressarcimentos materiais, morais e históricos a que têm direito pelo sofrimento.

António Marinho e Pinto 12 de Janeiro de 2015 às 00:30

O ataque terrorista contra o jornal satírico Charlie Hebdo suscita-me em primeiro lugar um profundo sentimento de solidariedade com as vítimas: as que morreram e as que sobreviveram. Entre as vítimas, estão os familiares, os amigos e os colegas dos mortos e dos feridos, mas também o Charlie, a comunicação social, a sociedade parisiense e a França. E, por fim, vítimas são também a Europa e a sua cultura que irredutivelmente privilegia a liberdade.

É, pois, nas vítimas que deveremos centrar as nossas preocupações, até porque, ao longo da história, a Europa não tem sabido reconhecer o lugar dos que sofreram com a violência. As vítimas não têm ocupado o lugar a que têm direito pela sua própria condição, talvez porque isso incomoda muita gente. Não se trata de entregar às vítimas a espada da justiça, pois só se vingariam. A justiça cabe apenas ao estado. Trata-se de lhes dar os ressarcimentos materiais, morais e históricos a que têm direito pelo seu sofrimento. É aqui que a Europa tem falhado. Confrontar as vítimas com os seus carrascos é a primeira exigência moral de uma sociedade civilizada. Mas confrontá-la também com a própria sociedade que gerou esses carrascos. Todos temos de olhar de frente as vítimas – olhos nos olhos. Todos temos, enfim, de lhes pedir perdão, pois, perante elas, ninguém está completamente inocente.

Outra consideração prende-se com o que a Europa vai fazer agora. Aqui as minhas preocupações não são menores. A violência sempre foi uma constante na Europa. Ainda há poucos anos, um jovem norueguês loiro, de olhos azuis, de extrema-direita e cristão, assassinou a sangue-frio mais de sessenta jovens e adolescentes seus compatriotas. Ambos os casos são expressão das mesmas pulsões assassinas. Por isso é que quaisquer que sejam as medidas que venham a ser tomadas, elas não devem mudar nada que possa ser considerado uma cedência ao terrorismo. Qualquer mudança só será uma boa resposta ao terrorismo se revitalizar aquilo que ele queria destruir: a liberdade.

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