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Maurício do Vale

Em espírito de Natal

Neste fim de semana de Natal, dentro dum certo espírito natalício, parece-me a propósito referir aqui algumas curiosidades, que revelam ligações entre a Tauromaquia e a Religião.

Maurício do Vale 25 de Dezembro de 2016 às 17:59

Neste fim de semana de Natal, dentro dum certo espírito natalício, parece-me a propósito referir aqui algumas curiosidades, que revelam ligações entre a Tauromaquia e a Religião, aos mais diversos níveis e pelas mais variadas razões.

No cinema, por exemplo, em Espanha, a película El Niño de las Monjas conta a história dum toureiro (Enrique Vera) que foi criado num colégio de religiosas, as quais respeitaram e apoiaram as tendências aficionadas do jovem, ajudando, até, à confecção do seu primeiro "traje de luces".

Outro filme foi El Relicário, com Carmen Sevilla, tendo por argumento uma história de amor, em que teve um relicário, tipo crucifixo, como comovente e espiritual relação entre um toureiro e a sua amada. Ainda hoje muitas bandas de música interpretam o tema da película, o belo "pasodoble" El Relicário.

E que dizer do matador que se fez padre? Foi o caso do espanhol Juan Garcia "Mondeño", toureiro de enorme estética e profundidade, de vincada e serena personalidade, cuja serenidade diante dos toiros era sua marca, como nas inesquecíveis "manoletinas" de cunho muito pessoal, na linha de "Manolete", criador desse passe de muleta. Pois, "Mondeño" retirou-se, quando sentiu a chamada religiosa e recolheu a um Convento, desfrutando dos silêncios dos claustros depois dos clamores das praças!

Tudo isto sem esquecer, ainda em Espanha, a ganadaria que honrava o nome de origem, o "Cura de Valverde", sendo que, em castelhano, cura significa padre...

Em Portugal, algumas personalidades são reveladoras de aficion e religião. O saudoso Padre Teodoro Marques da Silva, que foi pároco em S. João de Deus e na Sé Patriarcal, ambas em Lisboa, era muito aficionado e amigo dos toureiros, em particular do recordado matador e empresário Manuel dos Santos. Foi capelão da Praça do Campo Pequeno e organizou uma festa de campo, em que juntou duas mil pessoas, entre paroquianos, famílias e amigos. Foi autor e apresentador dum programa semanal da RTP, sobre temas socio-religiosos, e disse nos écrans que "os toureiros não se benzem por medo, mas, sim, porque desse jeito sabem que estão mais próximos de Deus"!

Tiveram fama as Garraiadas do Liceu de Gil Vicente, no Campo Pequeno, aí se estreando grandes nomes da tauromaquia portuguesa. Pois era o Padre José Alcobia que coordenava as respectivas organizações, sendo que os lucros (ao tempo do empresário Manuel dos Santos) eram repartidos por famílias carenciadas, mormente moradores idosos do Bairro da Graça, a que pertencia o referido liceu. O Padre Alcobia faleceu recentemente, mas ficará presente em muitas memórias.

E quem não conhece o Padre Vítor Melícias? Um cidadão ilustre, de pergaminhos sem fronteiras, com invulgar e exemplar dedicação a causas sociais, como é o caso das Misericórdias. Capelão da Praça do Campo Pequeno, tem dado a cara pela Tauromaquia, defendendo os seus valores, tendo assumido a Corrida de Toiros dos 500 Anos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, um evento inesquecível.

Remato este texto com a referência a Frei Elias, padre que é o titular da ganadaria de São Martinho, que pasta na Amareleja. Homem ilustre de grande sensibilidade e cultura taurina, verdadeiro estudioso do tema, um humanista que é um enorme aficionado, ganadeiro por sentimento.

Alguns exemplos de gente boa, de princípios e valores, que são expressão exemplar da religiosidade da Tauromaquia!

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