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Fernando Sobral

Observadora

PJ Harvey deseja ser testemunha de cenas de recentes conflitos.

Fernando Sobral 30 de Abril de 2016 às 00:30
PJ Harvey é uma das últimas grandes guerrilheiras da música popular. E, se dúvidas existissem sobre isso, basta escutar um dos discos que vai marcar decisivamente este ano: ‘The Hope Six Demolition Project’. É, no limite, uma reportagem ao som de guitarra e saxofone, como se tivéssemos regressado ao tempo de Woody Guthrie ou Phil Ochs, que observavam o mundo à sua volta e contavam as suas emoções e razões em forma de canto.

Este é um disco que parece uma bandeira desfraldada ao vento, um clarim que evoca este mundo temível em que vivemos. Escute-se, por exemplo, um dos grandes temas do disco, ‘The Ministry of Defence’, para entendermos em que mundo estamos e como devemos olhar para ele. O principal desejo de PJ Harvey é ser uma testemunha de cenas de recentes conflitos, como os do Afeganistão ou Kosovo. Ou mesmo aquilo que é a miséria da capital do globo, a desoladora Washington, como se escuta no belo tema ‘The Community of Hope’. Há aqui um mundo sombrio que é descrito pela voz de PJ Harvey, que às vezes parece ser um eco actual das páginas escritas por Charles Dickens num outro contexto e num outro tempo. Este é um disco de actualidades. Feito em conjunto com Seamus Murphy, um fotógrafo e documentarista. Uma união de esforços notável. Parecem despachos da frente de batalha, qualquer que ela seja. Mas há claramente também muito bom rock, como ‘The Wheel’. Ou a profundidade de ‘A Line in the Sand’. A claridade do imaginário que PJ Harvey partilha connosco mostra que o rock pode continuar a ser um exercício de resistência e de crítica.
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