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Octávio Ribeiro

Uma escuta aqui...

Sendo cada vez em menor número, alguns portugueses continuam talentosos.

Octávio Ribeiro(octavioribeiro@cmjornal.pt) 15 de Outubro de 2017 às 00:32
Sendo cada vez em menor número, alguns portugueses continuam talentosos. Alguém, cuja identidade o CM revela hoje- assina ‘Bandex’ –, colocou na net uma montagem de sons e imagens, que caricaturiza a essência da narrativa de Sócrates até este momento luminoso em que foi conhecida a Acusação.

O refrão desta música genial é uma frase de Sócrates com muitos meses, ‘uma escuta aqui, uma escuta ali’.

Juntava tais sílabas o ex-primeiro-ministro, para desvalorizar os indícios, que agora cristalizaram na imputação de 31 momentos de ação criminosa.

Até à distante leitura da sentença, é natural que alguns dos crimes, de que Sócrates chegará acusado a julgamento, possam não resistir à consolidação de prova exigida por um coletivo de juízes.

Mas a Acusação mostra já que a investigação encontrou bem mais do que ‘uma escuta aqui, uma escuta ali’. Não sendo de desvalorizar muitas escutas que ilustram bem como se movia Sócrates e a sua corte criminógena.

A corrupção praticada em alto nível é, a par da pedofilia, o crime que mais dificilmente se confessa. Em causa estão valores tão profundos, que os acusados sentem não poder andar de cabeça erguida se os confessarem, mesmo se tal confissão lhes fizer baixar a pena.

Por isso, é previsível que Sócrates chegue ao final do seu último recurso a trautear o estafado refrão de ‘uma escuta aqui, uma escuta ali’.

Também o seu boçal, cada vez mais boçal, advogado, João Araújo, não sairá da arenga permitida pela sua classificação da Acusação como romance, quando tentar desfazer as testemunhas arroladas pelo Ministério Público.

Ouvidas as escutas daqui e dali, e vistos os documentos que provam a circulação de milhões até às pródigas mãos de Sócrates, lidos os indícios testemunhais, duas perguntas ficam para o futuro legislativo do País, em jeito de refrão: continua o Legislador na desvergonha de não penalizar o enriquecimento injustificado? Não é já tempo de separar claramente o quadro penal aplicável a corruptores ativos, que colaborem com a Justiça (Godinho, na Face Oculta; Santos Silva, no Marquês), do que deve estar reservado aos que se deixam corromper, sendo detentores do poder público?

Se, perante o passado recente, tudo na nossa legislação continuar igual, o Legislador continuará vergonhosamente esperançado em que alguns dos seus façam fortuna à custa da saúde de Portugal.

E possam escapar impunes.
Octávio Ribeiro opinião
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