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Padre António Rego

A inutilidade do belo

Como é possível que tudo isto possa acontecer sem o toque anónimo do infinito.

Padre António Rego 1 de Setembro de 2017 às 00:30
Se entrarmos num submarino, numa aeronave ou em qualquer planeta informático, vemos painéis, corredores infindos, enredos intricáveis de fios, mil sinais de pequenas luzes, combinações com siglas indecifráveis, números que jamais permitem entendimento, especialidades de todas as ciências, artes, dimensões, infinitos. Numa palavra, todos os dias batemos à porta do insondável, recusando sempre confessar o nosso mestrado de néscios orno mínimo, de principiantes na arte do saber.

Contemplar horizontes, sentir o bater do mar no seu timbre indefinível de vagas que nunca nos revelam o que vem a seguir, ouvir esse marulhar de águas a roçar as praias ou a bater ferozmente nas rochas, é uma ciência que só se aprende fechando os olhos, desligando os sentidos, abrindo a vibração da alma, deixando-se atingir pela surpresa da luz, da água ou do vento, ainda que venha em brisa.

Dou por mim com estes rebuscados pensamentos que nos passam pela alma quando nos sentamos sem pressa diante de um horizonte que se não sabe explicar no enredado daquilo que parecem nuvens a roçar o céu. Mas não se sabe onde começam nem a superfície que ocupam, nem como serão no minuto seguinte, nem o que refletem: se o céu, o mar, os séculos ou os milénios. Não se distingue o espaço do tempo, o finito do infinito, a matéria do imponderável, o volume exato de cada elemento que além, sempre além, desafia a nossa medida estreita e humilde. Por perto continua o mar que parece bater o mesmo compasso mas sem uma espuma igual à outra, nem qualquer tom de vaga que se pareça com o anterior.

E como é possível que tudo isto possa acontecer sem o toque anónimo do infinito, cujo nome os crentes conhecem mas não sabem explicar, sobretudo quando lhes perguntam.
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