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Padre António Rego

Duas figuras

Em Myanmar, o papa Francisco não teve medo de comparar Buda a Francisco de Assis.

Padre António Rego 1 de Dezembro de 2017 às 00:30
Ficará para a história a viagem do Papa a Myanmar. Basta dizer que o número de monges budistas no país é igual ao número de católicos. E não obstante o espírito pacificador, têm muita dificuldade em aceitar no seu território outras confissões religiosas, sobretudo a muçulmana.

Francisco pôs-se a caminho num apelo vigoroso, pedindo que fosse superada "a incompreensão, a intolerância, o preconceito e o ódio". E não teve medo de comparar Buda a Francisco de Assis.

Enquanto Buda aconselhava "vencer o rancor com o não rancor, o malvado com a bondade", Francisco de Assis pedia "onde houver ódio que eu leve o amor".

O mérito do Papa foi descobrir e proclamar a convergência que poucos encontram entre dois homens distantes no tempo e no credo. E daí se tirará a lição mais forte: como duas figuras marcantes da humanidade - Buda e Francisco de Assis - sem aparente semelhança, proclamam pontos comuns que vêm ao encontro mais profundo do ser humano.

O amor e a reconciliação não são pertença de ninguém e descobrir dois seres tão diferentes, olhá-los com a mesma veneração e citá-los como modelos, é um gesto que a humanidade regista e de que se não pode sentir alheia.

Francisco, Papa, não é homem de muitas viagens. Mas não deixa indiferentes os cristãos e não cristãos nos locais que visita.

Sem espetáculo, olhando como irmãos outros crentes, animando na fé e na esperança os cristãos, ainda que minorias, lembrando que eles existem e têm uma lição a dar a seus irmãos. Por vezes, não entendemos a solidão da fé.

A Igreja una não é um aparelho dogmático mas um vínculo vivo entre crentes no mesmo Jesus. E a figura do sucessor de Pedro não é a de chefe tribal ou ditador doutrinal, mas o que torna visível e atuante a unidade que a todos anima, e fortalece a consciência de não estarem sós.

Por isso, uma visita a um rebanho mais distante se reveste dum significado de quem vai ao encontro das ovelhas mais esquecidas do grande rebanho - para usar a imagem do bom pastor.
Padre António Rego opinião
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