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Padre António Rego

Sobre os nossos ombros

Somos testemunhas do sofrimento atroz de irmãos nossos em humanidade e fé.

Padre António Rego 23 de Junho de 2017 às 00:30
Nem todos mudámos de veste ao longo desta semana. Mas todos vestimos o luto, porventura mais fundo, com os nossos silêncios tingidos de chamas, a remoer perguntas de mágoa, em comunhão com os que partiram e os que não têm mais lágrimas para chorar em zonas devastadas pelo fogo. Ainda em tempo de emergência, surgem olhares para o futuro com apelos de prevenção, sem concretizar ou apontar, por enquanto, caminhos claros, para que tamanha tragédia não nos atinja de novo.

Mas não deixamos de olhar para o alto, donde caiu o raio - palavra utilizada por vezes em protestos, ou entre amigos e sobretudo inimigos. Ou para novas versões que já surgem como causa. Este olhar cruza-se com uma forma de falar com Deus, última instância dos nossos becos e da nossa debilidade. Mas também nos lembra o respeito pela mãe natureza. Os peritos, conhecendo as causas, desconhecem o dia e a hora em que chegará a catástrofe. E ainda menos o local. Mas nada dispensa a nossa ação no terreno para aprendermos com os nossos erros a gestão da terra. Já muito se sabe mas, num momento como este, percebemos que muito mais está por saber. E por fazer. E a humildade não fica mal a ninguém, sobretudo aos mais conhecedores que dão o seu melhor para fornecer dados de leitura e prevenção à comunidade.

A história nunca se fixa num facto apenas, feliz ou trágico. Por dentro vai ressoando um vamos à frente porque a vida continua. A pergunta está sobre a forma como devemos ultrapassar um acontecimento, sem nunca esquecermos a lição que nos lega. Foi assim com o dilúvio, o terramoto de Lisboa e tantos, tantos outros. Vamos à frente, mas levando aos nossos ombros a lição e o apelo que o fogo, feito sinistro, nos lega. Somos testemunhas do sofrimento atroz de irmãos nossos em humanidade e fé. Quem se atreve a ficar indiferente?
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