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Paulo Sargento

A Tribo do Futebol

Irei continuar a adorar a patinagem artística sobre o gelo, mas não deixarei de ter esperança num Futebol como sinonímica de Paz e Fraternidade!

Paulo Sargento 17 de Fevereiro de 2020 às 17:17

Vou iniciar esta pequena reflexão com uma declaração de interesses: o meu desporto favorito não é o futebol, mas, sim, a patinagem artística, especialmente em recinto de gelo. Ainda que tenha a minha preferência clubística, o futebol ocupa um lugar exíguo da minha atenção cotidiana (vejo, de quando em vez, um jogo de futebol na TV e, mais raramente, num estádio).

O episódio Marega, no jogo que decorreu entre o Futebol Clube do Porto e Vitória Sport Clube, de Guimarães, não é, infelizmente, inédito. Mas, por não ser inédito, não significa que seja menos criticável; pelo contrário, é absolutamente desprezível! O crescendo de manifestações potencialmente configuráveis como crime de racismo é muitíssimo grave e preocupante. Mas também são preocupantes os crimes de homicídio praticados com o Futebol como pano de fundo. Ou os crimes de colarinho branco (como as lavagens de dinheiro e massivas evasões fiscais), praticados com o futebol como pano de fundo. Ou os crimes de corrupção. Ou os crimes de ofensas físicas. Ou os crimes contra a propriedade. Ou os crimes de difamação. Etc., etc., etc.; Ou ainda a incivilidade, o fanatismo e a boçalidade. Ou a má-educação e a mera, mas perigosa, estupidez… 

Bom, o Futebol, outrora terreno fértil do Desporto que mereceu o cognome de Rei, para os portugueses, hoje parece não existir! Nem mesmo naqueles 90 minutos onde o jogo, alegadamente, se pratica. O que parece existir hoje é um palco, também chamado Futebol, que se apoderou de tudo o que de pior a humanidade pode dar. Gostava de fazer um desafio à leitura de uma obra publicada em 1981, da autoria de Desmond Morris, intitulada "A Tribo o Futebol". É um livro aconselhável a todo e qualquer cidadão, mas obrigatório a Dirigentes, Claques e outros "agentes" que, de uma forma ou de outra, preenchem, com o seu verbo e ação, o conteúdo não atlético (e incomensuravelmente maioritário) desta manifestação desportiva. É um documento que nos convoca à reflexão sobre as razões pelas quais no Futebol já se ultrapassaram todos os limites que a tolerância civilizacional deve permitir. E há muito tempo!

Enfim, a barbárie, a boçalidade e o crime continuam a ser interpretáveis como meras exacerbações emocionais do, mais que mal apelidado, Desporto-Rei. E isto não parece grave para algumas elites, tornando-se, mesmo, desejável em alguns "setores", e em determinadas circunstâncias ou horizontes temporais. Panem et circenses (pão e circo), como tem sido apanágio dos muitos poderes ao longo das civilizações humanas? Talvez; e talvez por isso, Konrad Lorenz, etólogo galardoado com o Prémio Nobel da Medicina em 1973, terá afirmado: "Acredito ter achado o elo perdido entre o animal e o homem civilizado: somos nós."

Irei continuar a adorar a patinagem artística sobre o gelo, mas não deixarei de ter esperança num Futebol como sinonímica de Paz e Fraternidade!

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