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Pedro Santana Lopes

'Caldos' de cultura

A sensação de acelerar em cima de areia.

Pedro Santana Lopes 14 de Junho de 2015 às 00:30

Tony Blair não tem a simpatia e a boa disposição que referenciei, por exemplo, em Gerhard Schroeder. É um homem fechado, pouco expansivo, apesar de ser muito fluente no discurso. É sem dúvida um homem de grande inteligência, com uma grande capacidade política e que representou para os trabalhistas, em certa medida, a força de mudança e carisma que Margaret Thatcher, anos antes, tinha representado para os conservadores.

Nos conselhos europeus  nunca lhe ouvi grandes intervenções. Mas recordo-me de um jantar – daqueles que se costumam seguir a essas reuniões entre os chefes de Governo de Estado que estejam presentes (como é sempre o caso de França) – em que ouvi uma intervenção que nunca esqueci.


Relembro que estávamos em 2004, em plena invasão do Iraque. Nessa noite, Silvio Berlusconi fez uma extensa intervenção sobre essa matéria. Num dos próximos artigos falarei sobre essa personalidade e esse discurso. Hoje quero só salientar aquilo que Tony Blair afirmou no final de uma intervenção que fez depois de ouvir vários dos seus pares dissertarem sobre a economia europeia e as novas Perspetivas Financeiras que estavam então em negociação.

Virado para todos nós, depois de uma análise, como é seu timbre, inteligente sobre aquilo que se passava à época e as perspetivas para o futuro próximo, faz um momento de pausa e diz: "O que mais me custa, o que mais me impressiona, é todos os dias trabalhar tantas horas e no dia seguinte, quando acordo e penso no que já fiz, no que tenho para fazer, sempre me assaltar a sensação de que estou a acelerar em cima da areia.

Na verdade, por mais que façamos, por mais investimento que haja, por mais crescimento da economia que consigamos, os nossos produtos nunca são competitivos com os dos países emergentes e, portanto, por mais que façamos, por melhores decisões que tomamos, não conseguimos competir com eles."


Passados poucos meses, entraram em vigor as novas regras do desmantelamento aduaneiro para têxteis e vestuário no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Estou certo de que era essa a realidade que Tony Blair também tinha em mente quando expressou aquele estado de espírito. O futuro veio a dar-lhe razão quanto ao seu pessimismo sobre a força da União Europeia e a capacidade competitiva das suas economias.

Mas manda a verdade dizer que em vários setores, incluindo em Portugal e em várias áreas do seu tecido industrial, como no têxtil e no calçado, verificou-se uma fantástica capacidade de reconversão, apostando na inovação, no design, em novas tecnologias e noutros fatores que trouxeram competitividade.


Pouco tempo mais tarde, deixei a chefia do Governo de Portugal e cerca de dois anos depois Tony Blair terminou o seu longo consolado de uma década à frente do Governo do Reino Unido.  Cada país, de facto, tem a sua cultura. E se em Portugal eu tinha chefiado o Governo por causa da partida inesperada de Durão Barroso para a presidência da Comissão Europeia, Blair entregou também a chefia do executivo a um primeiro-
-ministro não eleito, por causa de um acordo feito anos antes com Gordon Brown.

Os ‘caldos’ de cultura até entre estados-membros da mesma união têm de ser de facto muito diferentes. Já referimos Berlusconi, que tendo sido primeiro-ministro de Itália, era proprietário ao mesmo tempo de um clube de futebol, o que cá seria impossível. Não tendo nada a ver também, seria impossível um primeiro-ministro ceder o seu lugar a outro militante do mesmo partido porque tinha feito esse pacto com ele quando ainda estava na oposição. 
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