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Pedro Santana Lopes

De quem falava George W. Bush?

Bush era bem mais alto do que parecia na televisão.

Pedro Santana Lopes 26 de Julho de 2015 às 00:30

Enquanto primeiro-ministro falei três vezes com George W. Bush: duas ao telefone e uma pessoalmente no hotel Waldorf Astoria, numa receção que ele e a sua mulher Laura ofereceram aos chefes de Estado e de Governo presentes na Assembleia Geral das Nações Unidas de setembro de 2004. As conversas telefónicas foram quando eu iniciei funções e depois quando o Presidente Bush foi reeleito em novembro de 2004.

Como líder da maior superpotência, ele tem de falar com os líderes de praticamente todo o mundo. É marcada uma hora certa com dois ou três dias de antecedência. Pelo que soube, naquela altura, para receber as felicitações pela sua reeleição, Bush fez dezenas de telefonemas por dia. Quando iniciei funções, a hora também foi marcada, porque além da matéria das felicitações são vários os assuntos que os chefes de Estado e de Governo falam ao telefone entre si.


A receção no Waldorf Astoria foi impressiva. Em primeiro lugar, pelo hotel em si, carregado de história e de histórias em filmes vários. Tocava uma orquestra no balcão do salão principal onde o Presidente Bush e sua mulher recebiam os cumprimentos dos seus convidados que iam chegando e que em fila iam passando por eles, trocando também algumas palavras. Quando foi a minha vez, acercando-me do casal presidencial, tive logo a sensação de ver como George W. Bush era bem mais alto e com maior envergadura física do que parecia na televisão.


Cumprimentei os dois, posámos para a fotografia que Laura e George tiravam com os convidados e conversámos um pouco. O Presidente dos EUA disse uma frase simpática, com boa disposição e no meio de boas gargalhadas: "You are the one who took the Barroso job... I think he (ou you) got the best job." ("Foi você que ficou com o emprego do Barroso. Acho que foi ele (ou você) que ficou  com o melhor trabalho"). Com franqueza, fiquei na dúvida se o Presidente tinha dito "he" ("ele") ou "you" ("você"), o que fazia toda a diferença.


Com o tempo veio a ficar claro que não fui eu quem ficou com a melhor "parte". A dificuldade em ouvir a frase ao certo vinha também do facto de a orquestra ir tocando clássicos, nomeadamente de Glenn Miller.

Como já tive ocasião de dizer em artigos anteriores, o ambiente naquela altura era pesado, pois estávamos em plena invasão do Iraque e era muita a polémica por causa da autorização da ONU para aquela intervenção. Bush, Blair, Aznar e Barroso eram condenados pela opinião pública por causa da Cimeira dos Açores. Sentia-se a tensão no ar e ninguém sabia qual iria ser o desfecho de todo aquele processo. Ouvir aquela orquestra a tocar, com todos aqueles convidados tão ilustres, algo me fazia lembrar o ‘Titanic’…


Só que passou aquela invasão, aconteceu o que aconteceu, outras guerras tiveram lugar, outras invasões acontecem, outras deslocações de contingentes militares, nomeadamente dos EUA, têm de acontecer e as orquestras continuam a tocar. Mas, devo confessar, e apesar de tudo o que se dizia na altura de George W. Bush, ele causou-me uma impressão de pessoa muito simpática, mesmo afetuosa.


Seguir-se-iam tempos difíceis e passadas poucas semanas tive de tomar a decisão, com o Governo, de não fazer a GNR regressar do Iraque no prazo que estava previsto, depois de uma pequena prorrogação para além do final daquele ano de 2004.


Tudo é sempre polémico em matéria de guerra e de paz, mas tem provado o decorrer do tempo que não é só George W. Bush quem faz deslocar tropas, mesmo sem autorização da ONU.
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