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Pedro Santana Lopes

Inteligências variadas

Colin Powell era sempre tido como cético em relação à orientação seguida pelo seu presidente em sobre o Iraque

Pedro Santana Lopes 25 de Outubro de 2015 às 15:00

Colin Powell foi um chefe militar distinto, foi o equivalente a ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA e foi durante muito tempo tido com presidenciável. Todos o viam fazer aquilo que Barack Obama acabou por concretizar anos mais tarde, ao ser eleito como primeiro presidente afro-americano dos Estados Unidos. Recorde-se que Powell desempenhou aquelas funções no governo de George W. Bush e, especificamente, durante a invasão do Iraque, ocorrida em março de 2003.



Como se sabe, foi muito debatida na altura a necessidade de autorização da ONU para essa intervenção. Recordemos que Colin Powell era sempre tido como cético em relação à orientação seguida pelo seu presidente. Powell, recordo-me, durante muito tempo, quando instado pelos jornalistas, não respondia de modo a tornar clara a sua posição sobre a matéria, mas também nunca corria o risco de exprimir qualquer dissonância. Era cauteloso, o que dava azo a especulações sobre eventuais divergências.

O tempo foi passando e chegou o dia em que Colin Powell foi à Assembleia Geral da ONU discursar, para exibir as tais provas da suposta existência de armas químicas, que justificaram a invasão do Iraque por tropas estrangeiras. Foi um momento do qual Powell não saiu bem, até porque o que mostra, mais uma vez, é que não devemos desempenhar papéis ou ter intervenções que contrariem a nossa maneira de ser. E Colin Powell ao fazer aquela intervenção não estava de facto a agir – pelo menos com a ideia que as pessoas sempre tiveram dele – como um moderado. Não quer isto dizer que pessoas moderadas não pudessem apoiar uma intervenção militar como aquela. Mas não podem é hesitar entre falar e não falar e, depois, aparecerem a sustentar as posições mais perentórias sobre o tema.

Em dezembro de 2005, meses depois de eu cessar as minhas funções de primeiro-ministro, António Cunha Vaz organizou esse jantar com o ex-secretário de Estado norte-americano. Tive a honra de ficar à direita do General e quem fez a sua apresentação foi Paulo Portas. Tive, portanto, oportunidade de falar bastante com aquele dirigente americano, nomeadamente sobre a política interna dos EUA. Na altura, especulava-se se Colin Powell viria ou não a ser candidato pelos republicados, apesar de ele ir afastando essa hipótese. Nesse jantar confirmou-me que não tencionava ser candidato e manifestou-me a opinião de que considerava ser ainda cedo para, na eleição que se seguia, um afro-americano poder ganhar a presidência dos EUA. E falámos também sobre a hipótese de ser uma mulher, nomeadamente Hillary Clinton, embora tenha a ideia de ele ter sido mais reservado sobre esta opção. Como se viu, sobre a possibilidade de uma vitória de um afro-americano, enganou-se redondamente. O que fica dito sobre os enganos ou discursos de Colin Powell em nada invalida a consideração que tenho pela sua figura pessoal e política, pela sua inteligência e pela sua folha de serviço ao seu país. Mas a história dos tempos mostra, que há vários tipos de inteligência e que nem sempre todas as pessoas brilhantes são capazes na atividade política. Podem ser brilhantes e rápidas no raciocínio, mas pode-lhes faltar intuição, capacidade de decisão e até sensibilidade social. É preciso ter sempre bem presente essa verdade óbvia: não há ninguém que tenha vocação para tudo e há muitos que só têm vocação para um determinado tipo de tarefa ou atividade. Esquecer esta regra leva, por vezes, a consequências muito complicadas, como a história portuguesa e internacional tão abundantemente demonstram.

 

Colin Powell

Secretário de Estado dos EUA entre 2001 e 2005

Nascimento

5 de abril de 1937

Local Harlem, Bronx, Nova Iorque

Pais Emigrantes jamaicanos Luther Theophilus Powell e Maud Arial

Casamentos Alma Johnson

Filhos  Michael Powell, Linda Powell,  Annemarie Powell

Educação Liceu Morris High (1954 ). Estuda depois geologia no City College, da mesma cidade, Nova Iorque. Entra para os Reserve Officers’ Training Corps, uma unidade militar

Cronologia

1962 Guerra do Vietname, na qual fez uma primeira comissão até 1963. Faz segunda comissão entre 1968 e 1969

1972 Entra para o staff da Casa Branca como assistente de Frank Carlucci

1987 Integra o Conselho Nacional de Segurança dos EUA e torna-se assessor de Ronald Reagan para assuntos de segurança nacional

1990 George Bush nomeia-o para o chefe do Estado-Maior, o mais alto posto militar

1989 Lidera invasão norte-americana do Panamá, para derrubar e capturar o Manuel Noriega

1990 Operação Tempestade no Deserto, também por si planeada

1993 Retira-se da vida militar

2001 A 20 de janeiro torna-se Secretário de Estado dos Estados Unidos e um elemento-chave no governo de George W. Bush na luta contra o terrorismo, especialmente após os atentados de 11 de Setembro

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