Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
7
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Pedro Santana Lopes

Um aviso antecipado sobre a Ucrânia

Putin: Figuras que marcam.

Pedro Santana Lopes 17 de Maio de 2015 às 00:30

Recebi Vladimir Putin em novembro de 2004, quando estávamos em plena invasão do Iraque pelas tropas da coligação. Ao mesmo tempo, na Ucrânia vivia-se um complexo processo, que levou a um atentado, nunca totalmente explicado, que desfigurou Viktor Yushchenko, casado com uma americana de quem se insinuava ter ligações a serviços secretos americanos. Yushchenko era na altura o líder da chamada Revolução Laranja, que pretendia constituir um passo no aprofundamento da democracia naquele país.

Vladimir Putin estava na sua primeira encarnação, enquanto Presidente da Rússia, porque, como se sabe, por causa da limitação de mandatos, depois teve quatro anos como primeiro-ministro, tendo, posteriormente, voltado a ganhar a presidência. Vladimir Putin e eu conversámos com mais facilidade porque ambos falamos alemão, ele melhor do que eu. Vladimir Putin viveu vários anos em Dresden quando pertencia aos quadros do KGB e eu vivi e estudei na Alemanha, além do que já tinha estudado desse idioma em Portugal. Isso dispensou um pouco o trabalho dos tradutores, estando nós acompanhados sempre pelos respetivos assessores diplomáticos. 

Já tive ocasião de dizer que, além do Papa João Paulo II, que não pode ser comparado, das personalidades internacionais que conheci, Vladimir Putin foi quem me causou uma impressão mais forte. Putin, logo naquela altura, alertou-me para o que significaria o Ocidente continuar "interessado" na Ucrânia. Teve ocasião de me dizer algo como: "Já têm vários países, que antes estavam ligados ao Bloco de Leste, a fazer parte da NATO e, portanto, sob a esfera de influência ocidental. Não compreendem que a Ucrânia é terra mesmo relevantíssima para os interesses estratégicos da Rússia?" (citação não exata).

Sublinhou ainda: "Deixem estar a Ucrânia como está. Não abusem." Confesso que, enquanto cidadão e governante, a minha reação instintiva foi a de reconhecer algum fundamento às palavras do líder da Rússia. Teve oportunidade também de me transmitir a dificuldade que, em sua opinião, o Afeganistão continuava a constituir e disse-me que "se pensam que o Iraque é difícil, de
pois verão o Afeganistão". Recorde--se que a antiga URSS experimentou bem as agruras de um conflito armado naquele território, com a intervenção que lá levou por diante nos anos 80, enfrentando um povo resistente e uma morfologia geográfica acidentada e, por isso, também uma guerra prolongada, que contou muitas baixas humanas e materiais. Hoje em dia é um exercício complicado tentar saber qual dos casos é mais complexo. A história muda muito depressa.


No âmbito da visita de Putin, à noite, no jantar oficial no Palácio da Ajuda, tínhamos o Presidente Jorge Sampaio entre os dois e procurávamos falar em alemão. Íamos fazendo-o por detrás do Presidente, que ia também falando com outras pessoas que estavam ao nosso lado. Às tantas, Jorge Sampaio fez, com razão, o "reparo": "Parem lá de falar alemão para eu entrar na conversa." É sabido que Jorge Sampaio fala muito bem inglês, mas Putin não domina esse idioma. E, portanto, teve que se recorrer ao tradutor.


Foram horas que guardo muito vivas na memória, passadas com um homem com ar glacial, mas cordial e simpático no trato, e com enorme conhecimento sobre o mundo e as relações internacionais. Nessa altura, por coincidência, mas principalmente por competência dos nossos diplomatas, tive ocasião de estar com os presidentes dos Estados Unidos, da Rússia e da China. Em próximas semanas falarei sobre os outros dois encontros.
Ver comentários